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Uma desconhecida Kyoto à beira-mar

Com a capital fortemente afetada pelo overturismo, a região de Tango é uma excelente rota de fuga


Templos e santuários portentosos, tradições japonesas milenares, gueixas a deslizar por ruas estreitas de comércio, culinária sagrada e vegetariana: se isso é tudo o que você sabe sobre Kyoto, pode se preparar para mudar seus conceitos. A Kyoto que todos conhecem é uma grande cidade cercada por montanhas. A capital da província homônima e ex-capital do império japonês — é a atual guardiã de tradições e mistérios do país, muitas vezes impenetráveis. Essa Kyoto, que chegou a atrair mais de 55 milhões de turistas antes da pandemia, é apenas a ponta de um iceberg.

Existe uma Kyoto à beira-mar, com uma costa recortada e lindas enseadas, uma Kyoto onde se come peixes e outros frutos-do-mar frescos e pela qual se trafega de lanchas pelas águas esverdeadas do Mar do Japão. Esta região, chamada de Tango, é um local ainda pouco desbravado por turistas estrangeiros, mas com tudo para agradar àqueles viajantes que gostam de espaço, natureza e de trafegar fora da rota batida.

A dois passos do paraíso

Amanohashidate, porta de entrada da Kyoto à beira-mar, é uma ponte para o paraíso. Ou, pelo menos, esta é a tradução literal do nome da localidade costeira conhecida por uma faixa de areia que represa uma parte das águas da Baía de Miyazu e forma a bela e tranquila Laguna de Asoumi. A paisagem é tão exótica que a palavra Amanohashidate se refere a uma ponte mitológica que, um dia, teria caído do céu.

Faixa de areia vista do Amanohashidate View Park.
Caiu do céu: faixa de areia de Amanohashidate (foto: Roberto Maxwell)

O passeio por aqui começa pelo Amanohashidate View Land, uma parque no alto de uma colina, atrás da estação ferroviária central da cidade. Teleféricos fazem o acesso ao local de onde se pode ter uma bela vista da faixa de areia e dos arredores. Daqui, uma espécie de ciclocarro suspenso oferece uma possibilidade mais exótica de desfrutar a bela vista.

Do ciclocarro dá para ter uma bela vista da faixa de areia.
Ciclocarro para apreciar a vista local (foto: Roberto Maxwell)

Arborizada com cerca de 8 mil pinheiros, a faixa de areia de 3,3 quilômetros é um convite para passeios a pé ou de bicicleta. Na entrada da faixa existem algumas lojas onde é possível alugar uma magrela e pedalar. O caminho é repleto de prainhas de areia, pequenos santuários e árvores muito bem cuidadas, com formatos que muitas vezes dá asas à imaginação. Antes da entrada na faixa, também vale a pena dar uma passadinha no Templo Budista Chionji. Já do outro lado da faixa, visite o Santuário Xintoísta Motoise Kono e o Parque Kasamatsu, também no alto de uma colina e acessível de teleférico. De lá de cima, é possível ter outra visão desse pequeno paraíso caído dos céus para o deleite dos reles mortais.

Na faixa, as várias prainhas são um ótimo local de descanso.
Na faixa, as várias prainhas são um ótimo local de descanso. (foto: Roberto Maxwell)

Casa de praia com duas vagas na garagem

A cereja do bolo da região fica a cerca de uma hora de ônibus de Amanohashidate. Quem desembarca em Ine tem a impressão de que a localidade não difere em nada de outras vilas de pescadores do Japão. As casas de madeira dominam a paisagem e as ruas são tão estreitas que fica até difícil de acreditar que foram feitas para os veículos estacionados nas garagens das residências. Mas não é preciso muito tempo de caminhada para chegarmos até uma enseada de onde se pode ver o outro lado dessas construções. Chamadas em japonês de funaya, elas são o que difere Ine de outras zonas pesqueiras do país.

Na vila de pescadores, as casas têm garagem para os barcos.
Vida dupla: os funaya mostram como duas épocas se encontram nesta Kyoto à beira-mar (foto: Roberto Maxwell)

Os funaya são retangulares e costumam ter dois pavimentos. O andar inferior é usado como garagem para o barco, na parte virada para o mar, e para o carro, na que é voltada para a rua. Também ali fica o local de trabalho dos pescadores, com ferramentas e utensílios para a pesca e para a manutenção dos ‘veículos’. Além disso, abrigam os varais usados para secar peixes. Já o andar superior é a moradia em si, com quartos e outros espaços privados da família.

As casas começaram a ganhar essa forma com a construção de estradas para conectar a vila a outras localidades. Isso foi em meados do Período Meiji (1868-1912). Os moradores queriam garantir o acesso à modernidade da estrada, sem perder a saída rápida para o mar. Isso resultou numa arquitetura que é única da região. Atualmente, são 238 construções do tipo que, desde o ano 2000, são tombadas como patrimônio cultural pelo governo japonês. A graça do local é explorar as ruelas, admirar a arquitetura das residências e passear de barco pela baía. Tudo com o devido cuidado para não incomodar os moradores.

São mais de 200 casas preservadas.
Os funaya de Ine foram tombados, o que garante a preservação de sua arquitetura única (foto: Roberto Maxwell)

A maioria das residências ainda é ocupada por famílias, boa parte delas de pescadores. Porém, alguns dos funaya foram transformados em ryokan, as pousadas tradicionais japonesas. O local tem, ainda, pequenos restaurantes onde se pode provar a culinária da região, baseada no peixe fresco. O Funayabiyori, por exemplo, é um espaço adaptado ocupado pelo Ine Cafe e pelo Wadatsumi, um restaurante de sushi, ambos muito bem avaliados pelos visitantes.

Quem espera badalação certamente não vai curtir a calmaria local. Porém, se você quer sentir cheiro de mar, ouvir o canto dos pássaros, caminhar sem ter que disputar espaço com tanta gente, fazer um passeio curto de barco por águas tranquilas e ver um belíssimo pôr-do-sol vai encontrar um recanto em Ine, essa pequena vila de Kyoto que acabou virando cartão postal por acidente.

SERVIÇO

Amanohashidate fica a cerca de 2 horas de trem expresso da estação de Kyoto. Uma linha de ônibus urbano conecta o centro da localidade aos funaya de Ine.

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