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Nagaya: construções antigas em risco de desaparecer

SHITAMACHI
ALÉM DO RIO SUMIDA

Desconhecida dos turistas e testemunha da formação
de Tóquio, a região da cidade baixa evoca o passado das
pessoas comuns e vive uma animadora reinvenção

texto e fotos: Roberto Maxwell
ilustrações: Renata Cabrera

A inexplorada estação de Hikifune não difere muito de outras paradas ferroviárias recém-renovadas dos subúrbios de Tóquio. Abaixo das plataformas suspensas, um pequeno centro comercial, com supermercado, café e quiosques, atende os fregueses que desembarcam em grupos a cada trem que para. Do lado de fora, capitaneado por uma grande loja de departamentos, o comércio do entorno disputa a atenção dos passantes, que aproveitam para levar as compras da semana, substituir a meia furada ou, simplesmente, petiscar algo antes de voltar para casa.


À medida que a estação se afasta, a paisagem comercial se dilui e dá lugar às casas. As ruas principais, largas e retas, são substituídas por vias mais estreitas e sinuosas. A distância da estação também evidencia a idade das residências, que parecem envelhecer bairro adentro. O contraste entre alguns prédios novinhos, moradias abandonadas tomadas pela vegetação e materiais aparentes, como madeira e zinco, são um exemplo autêntico de wabi sabi, o falado conceito japonês de aceitação e apreciação das consequências da passagem do tempo.

 

O cenário compõe Kyojima, um dos bairros da capital que melhor define aquilo que os toquiotas chamam de shitamachi, ou “cidade baixa”. A ideia de aglomeração urbana que se desenvolve em áreas desvalorizadas, mais suscetíveis a alagamentos e à maresia, embora se desdobre de formas diferentes ao redor do mundo, por vezes tem uma característica comum.

Em meio às mazelas, pode florescer ali uma interessante cena cultural, em contraste com o elitismo e a seriedade das zonas geograficamente mais altas.

Em Tóquio, isso começou a se desenhar no início do século 17.

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Tokyo SkyTree: futuro à espreita

Altos e baixos

Shitamachi está diretamente ligada à formação urbana da capital japonesa e, para entendê-la, é preciso situar também a “cidade alta”. Edo, que significa estuário, era o nome dado à região da província de Musashino às margens de uma baía, abastecida por diversos rios que desembocam formando uma planície de inundação no sopé de um platô – o castelo de Edo foi construído em 1456 nessa parte mais alta, com vista privilegiada e protegida da ação destrutiva do mar.
 

Anos mais tarde, o líder militar Tokugawa Ieyasu, subordinado a Toyotomi Hideyoshi (o senhor de terras que governava a maior parte do país, chamado de daimyō), foi destacado para a região de Kanto a fim de assumir o castelo, até então dominado pelo clã inimigo Hojo. Paralelamente, o eixo da urbanização se deslocava da região de Kansai (onde fica Kyoto, a então capital e sede da corte, e Osaka, o maior entreposto comercial) para a futura “capital do leste”, Tóquio.

Com a morte de Hideyoshi, Tokugawa Ieyasu se tornou o xogum, poderoso generalíssimo, de quem todos os demais senhores feudais
eram vassalos. Já instalado em Edo, ele ordenou que todos os chefes de clãs construíssem uma residência na área. A cada dois anos, os homens mais poderosos do Japão, suas famílias e samurais subordinados deixavam seus domínios em caravana para passar uma temporada sob as vistas do xogum.

Flores da nova urbe

A instalação do poder trouxe consigo a circulação de dinheiro e  pessoas de outras regiões em busca de oportunidades. Formava-se, assim, uma nova classe de comerciantes, artesãos e trabalhadores de
diversos setores. “Edo se tornou uma grande metrópole no século 17, assim como Londres e Paris”, explica Takashi Kato, autor do artigo Edo in the seventeenth century: aspects of urban development in a segregated society. Segundo os historiadores George Sansom e Andrew Gordon, em 1721, Edo abrigava mais de 1 milhão de habitantes, o que fazia da cidade a maior concentração demográfica do planeta.

 

Boa parte dessas pessoas se espremia nas áreas abaixo do platô de Musashino, em casas de madeira semicoletivas chamadas de nagaya (leia mais no box ‘A vida no nagaya’), sob condições quase
sempre insalubres. Alguns historiadores contam que os incêndios eram tão comuns que a população costumava dizer “brigas e incêndios são as flores de Edo”. O Grande Incêndio de Meireki (1657), por exemplo, teria matado entre um décimo e um terço dos então 300 mil habitantes da área. A tragédia levou a uma reorganização urbana, como a construção de pontes sobre o atual Rio Sumida – além de servir à consequente expansão de shitamachi, elas também teriam salvo vidas depois do Grande Incêndio, já que, naquela ocasião, muitas pessoas teriam se afogado por não ter outra forma de fugir das labaredas.

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Zinco: proteção da madeira contra as intempéries

Mesmo diante da adversidade, os moradores comuns de Edo faziam de shitamachi o nascedouro de uma nova cultura urbana, como contam os pesquisadores Damien Liu-Brennan e Myo Bryce, no artigo Japanese Fireworks (Hanabi): The Ephemeral Nature and Symbolism, sobre o desenvolvimento da cultura dos fogos de artifício em Edo. As mudanças na urbe também contribuem para a formação de uma identidade local na nova cidade. Com a fundação do templo Kan-ei-ji, em 1625, a colina de Ueno ganha a função de proteção contra o mal, de acordo com os preceitos do feng-sui, e se torna um importante espaço de respiro – e de encontros – entre os abarrotados bairros populares. Parques de cerejeiras passam a ocupar uma das margens do Sumida, que se torna um importante eixo de entretenimento, com barcos-restaurantes e festivais de fogos de artifício. Bairros como Nihonbashi, Yoshiwara, Asakusa e Ryogoku começaram a florescer nos séculos seguintes. Em uma época de paz e prosperidade, a cidade baixa vibra à revelia da caretice das zonas altas.

Shitamachi até os dias de hoje

O nome Tóquio, que significa “capital do leste”, surgiu em meados do século 19. Ao recuperar o poder militar e político, o imperador Meiji deixa Kyoto para trás, ocupa o castelo de Edo e o transforma no Palácio Imperial. A partir disso, a cidade passa por novas transformações. Com o fim da classe guerreira, a parte alta é desmembrada e seus lotes são ocupados pela nova aristocracia. Em shitamachi, no entanto, pouca coisa muda: ali continua sendo uma área de ocupação popular.
 

Anos mais tarde, o Grande Terremoto de 1923 devastou Tóquio, e o fogo consumiu aquilo que não caiu no tremor – é de se imaginar que os frágeis nagaya e, por consequência, a população mais pobre, foram os mais atingidos. Esse fato, além da expansão da malha ferroviária e da consequente abertura de loteamentos, deslocou a população mais pobre para os subúrbios, onde, ao menos, as condições de moradia deixaram de ser tão insalubres.
 

As compridas casinhas de madeira também foram vitimadas pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em especial nos bombardeios dos anos finais do conflito. Os novos contornos de shitamachi também foram delineados graças à expansão do metrô, que trouxe empreendimentos mais modernos, evidenciando a chamada cultura arquitetônica fluida. Ou, como definiu o arquiteto Ryue Nishizawa, cidades japonesas não são ambientes de preservação de prédios antigos. Pelo contrário, o “bota abaixo” é uma prática comum, principalmente quando se trata das residências.


Em um país onde as construções costumam ter tempo de vida útil determinado na planta, é natural que o passado se dissipe do mundo
material para ficar na memória. Mas isso não quer dizer que shitamachi de antigamente tenha desaparecido do mapa. Os nagaya, sua imagem mais icônica, ainda sobrevivem em bairros como Yanaka, Asakusa, Ueno e Kyojima. Esse último, apesar de próximo à maior torre do planeta, a Tokyo SkyTree, resiste praticamente invisível aos olhares de turistas e até mesmo dos moradores da cidade.

A vida no nagaya

Formada pelos caracteres de “comprido” (長) e ”casa” (屋), a palavra nagaya define uma série de moradias construídas com paredes geminadas, como se fossem um edifício horizontal. Feitos de madeira e com piso de tatami, quase não tinham isolamento acústico e térmico, o que transformava os moradores em verdadeiras famílias – em alguma medida, essas construções podem ser comparadas aos cortiços do início do século 20 em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. A noção de “puxadinho” também vale para a versão japonesa: inicialmente finalizados com um andar, muitos nagaya ganharam um pavimento extra ao longo dos anos.


Em seu célebre livro Tokyo: A Spatial Anthropology, sobre a antropologia dos espaços privados da antiga Tóquio, o arquiteto Jinnai Hidenobu conta que, até os anos 1920, as casas não tinham banheiro – a higiene era feita nos banhos públicos (ou sento), que também serviam como espaços de socialização. Poços e o depósito de lixo eram comunitários e um santuário xintoísta dedicado a Inari, a divindade da fertilidade, completava a construção.

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Nos nagaya, a proximidade entre os vizinhos é a tônica da vida.

Um olhar sobre Kyojima

Localizado na "outra" margem do Rio Sumida, fora da área urbanizada de Tóquio até o início do século 20, Kyojima assistiu a um intenso crescimento depois do Grande Terremoto de 1923. A chegada de duas linhas de trem na porção norte levou ao loteamento das plantações de arroz da região. Entre as ruas estreitas formadas pelos antigos canais de irrigação, espalharam-se pequenas fábricas e residências do tipo nagaya, o que tornou a área densamente povoada (estima-se cerca 800 habitantes por hectare) – como relata Takayuki Takaki Ayala, estudioso das transformações urbanas no Japão, no site da organização Project for Public Spaces.


O bairro sofreria poucas alterações até os anos 1990, graças à influência da comunidade – enquanto a capital japonesa se transformava rapidamente na megalópole que conhecemos hoje, Kyojima seguiu incólume, com a vida gravitando em torno do calçadão comercial Tachibana Ginza.

Isso mudou com a construção da Tokyo SkyTree, aberta ao público em 2012, e a perspectiva da realização dos Jogos Olímpicos. O preço dos terrenos na região aumentou à medida que a torre ganhava seus 634 metros de altura. Quadras inteiras de casas antigas foram desmanteladas e as fábricas e oficinas, capitaneadas por donos idosos, sumiram da paisagem. Por outro lado, o relativo isolamento e a decadência dos prédios atraíram jovens artistas e artesãos dispostos a manter algumas das antigas moradias de pé. Vistos inicialmente com desconfiança pelos antigos moradores, aos poucos eles conseguiram se integrar à vida comunitária. Eventos de arte se uniram ao calendário dos festivais tradicionais do bairro, enquanto ateliês, cafés e restaurantes passaram a ocupar os nagaya, ajudando a afastar o processo de gentrificação. Kyojima é mais um exemplo da negociação interminável entre o novo e o antigo em Tóquio – e um fragmento encantador da colcha de retalhos que compõe a maior megalópole do mundo.

Para conhecer Kyojima

TOKYO AIJO preparou um guia para você experimentar a vida em shitamachi. Confira nossas dicas de restaurantes, galerias e até hospedagem em Kyojima. Clique nos números da ilustração para acessar a localização no Google Maps.

TACHIBANA GINZA SHOTENGAI

O calçadão é um bom exemplo do comércio local japonês antes de surgirem os shoppings e supermercados. Eventualmente, há mercados matutinos e noturnos, festivais e feiras de desconto.

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kirakira-tachibana.jp (em japonês)

HALAHELU

Em um antigo nagaya revitalizado, o espaço abriga eventos gastronômicos e culturais e lojas temporárias, como o Muumuu Coffee, que atrai fãs do kendama, um estilo japonês de bilboquê.

Tokyo-to Sumida-ku Kyojima 3-50-14
facebook.com (em japonês)

KAMENYA OMOTE

A fachada da loja de máscaras, com paredes de telhas transparentes, chama a atenção. O lugar viralizou nas redes sociais pelos modelos ultrarrealistas, feitos a partir de rostos de pessoas reais.

Tokyo-to Sumida-ku Kyojima 3-20-5

kamenyaomote.com (em japonês e inglês)

BUNKAN

Em um antigo nagaya, funciona como café, bistrô, espaço de eventos e galeria de arte. O negócio é gerido por diferentes grupos de acordo com o dia de semana, um tipo de arranjo comum na capital.
 

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bunkan.com (em japonês)

MITSUYOSHI

Fundada nos anos 1960, a fábrica de tofu vende o produto em várias versões, além de leite de soja e doces à base do ingrediente. Um dos destaques é o agedofu, pedaços de tofu fritos por imersão.

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umai-tofu.com (em japonês)

SUMIDA NAGAYA

Um dos mais conhecidos endereços de Kyojima, o hostel também está instalado em um antigo nagaya. Afora os quartos coletivos a bons preços, o espaço abriga um agradável café.

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sumidanagaya.com (em japonês e inglês)

KYU-KOKURAYA

O antigo armazém de arroz transformado em espaço cultural promete movimentar a cena do bairro – e dá uma ideia de como shitamachi era no passado, já que boa parte do prédio foi preservada.
 

Tokyo-to Sumida-ku Kyojima 3-50-12

GALERIA TOWED

O espaço comercial transformado em galeria pode ser alugado a artistas que queiram expor suas obras, especialmente pintura. Visitá-la pode ser uma chance de
conhecer novos talentos de Tóquio.

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gallery-towed.com (em japonês)

Radicado no Japão desde 2005, ROBERTO MAXWELL atua como produtor de conteúdo multimídia. Apaixonado por viagens, dedica-se a percorrer o país e registrar em textos e imagens suas maravilhas e contradições.

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