Um fim de semana em... Kyoto

Inspirada pelo The New York Times, a Tokyo Aijo inicia uma série com dicas para viagens curtas nas cidades japonesas


Pagoda de Yasaka ao fundo de uma das mais belas ruelas de Kyoto. (imagem: PhotoAC)

Não importa se você acabou de chegar ao Japão ou se já mora no país há algum tempo. Visitar Kyoto, com seus bairros e construções históricas preservados, sempre traz aquela sensação de que, finalmente, se está no Japão. Ao contrário de Tóquio, Kyoto foi poupada de desastres naturais e guerras nos últimos séculos e os mais de mil anos como capital do país fizeram com que incontáveis templos e santuários, além de palácios e residências exuberantes, fossem construídos ao longo da história.


Nos últimos anos, a tudo isso foi sendo acrescentada uma série de espaços modernos e cheios de estilo, numa mistura que faz da ex-capital japonesa uma cidade única. Numa simples caminhada, você pode esbarrar num mini-templo quincentário, vizinho a uma doceria que serve a mesma receita há 10 gerações, que fica ao lado de um restaurante italiano localizado em um machiya — antigas residências urbanas — e que prepara seus pratos com ingredientes tradicionais japoneses da estação. Épocas, espaços e culturas em diálogo fazem de Kyoto uma cidade que abraça o mundo, sem deixar de lados as suas raizes. Vem conhecer essa cidade comigo!


Sexta-feira

15:30, Gion

Gion é o nome genérico de uma área de Kyoto que fica no entorno de dois distritos de gueixas muito popular na cidade: Gion Higashi e Gion Kobu. Nesses locais, mora, estuda e se apresenta uma boa parte das geiko (lê-se "gueiko" e é como as gueixas são chamadas em Kyoto) e maiko (aprendiz de geiko) da antiga capital japonesa. Os distritos ficam a algumas quadras de distância um do outro e suas construções de madeira de dois andares no fazem sentir como no Japão de outras eras.


Comece o passeio por Gion Higashi, na saída 9 da estação Gion-Shijo, da companhia Keihan. As ruas são um charme, com várias lojinhas para explorar. Uma delas é a Pass the Baton, um brechó descolado com café e barzinho. Aproveite para fotografar a belíssima arquitetura do local: as construções de madeira, pequenas pontes cruzando o canal e outros detalhes. Isso porque a área é mais tranquila, com menos turistas e restrições que o distrito vizinho, mais famoso.

Ponte sobre o Shirakawa, um estreito canal que corta Gion Higashi. (imagem: PhotoAC)

A poucos minutos de caminhada, após a travessia de uma movimentada avenida, fica a Hanamikoji, rua principal do Gion Kobu, o mais famoso distrito de gueixas do Japão. Era ali que, antes da pandemia, milhares de turistas se aglomeravam para tentar fotografar uma delas. Aliás, com sorte é mesmo possível ver uma maiko caminhando apressada pela rua, saindo ou entrando de um estabelecimento; ou, ainda, uma geiko tomando um táxi até o próximo compromisso, vestida em seu quimono altamente luxuoso.


O exagero por parte dos turistas, que chegavam a ser rudes e insistentes com as moças, levou a uma medida drástica por parte dos locais: no Gion Kobu é terminantemente proibido fotografar. Por isso, resista ao clique e curta a caminhada pela área que é cheia de antigas construções reaproveitadas como lojas e restaurantes. Dê uma passadinha na Leica Kyoto Store, o showroom e loja da Leica. É uma ótima oportunidade para conhecer o interior de uma das casas do bairro. Além disso, sempre tem uma exposição bacana no segundo andar, com entrada franca.


Gueixas e aprendizes são incorporadas ao cotidiano de Kyoto. (foto: Meg Yamagute)

Caminhando até o final da Hanamikoji, você chega ao Kennin-ji, o mais antigo templo zen de Kyoto, fundado em 1202 por Yousai, o monge que trouxe essa tradição budista para o Japão. No Hatto, o Salão do Dharma, olhe para o teto. A gigantesca imagem de dois dragões foi produzida em 2002, em celebração ao oitavo centenário do templo. Essa e outras obras de arte sacra budista podem ser vistas no local. Atrás do salão fica um singelo jardim zen, um convite para a contemplação.


Saindo do templo, o café Gion Kinana, na rua de trás, é uma pausa deliciosa para apreciar doces japoneses e seus delicados sabores como a farinha de soja torrada kinako, o matchá, o gergelim preto e o feijão doce em forma de sorvete ou, no verão, kakigori, a raspadinha japonesa.


Entrada do Kenninji, templo budista da escola zen. (imagem: Photo AC)
17:00, um brinde ao pôr-do-sol

Com o sol se pondo, é hora de voltar em direção à estação onde começamos o passeio, Gion-Shijo. Lá pertinho fica o In The Moon, um barzinho no terraço de um prédio com ótima vista da cidade. De lá é possível ver as pessoas se exercitando e socializando na beira do Rio Kamo, observar a arquitetura do teatro Minamiza que fica logo em frente e até mesmo avistar a Torre de Kyoto, ao longe. Coquetéis por volta de ¥1,000, sem taxa de serviço.


19:00, macarrão à japonesa

De volta à rua, cruzando a ponte sob o rio Kamo, Omen Udon é uma ótima opção para o jantar. Com mais de 40 anos de história, o restaurante é especializado em udon, um tipo de macarrão grosso, feito de trigo. Servido quente ou frio, o Omen é o teishoku (combinado) básico da casa e vem com uma porção de udon acompanhada de legumes e verduras e o kimpira gobô — bardana e cenoura cozidas no shoyu e no açúçar . O caldo, chamado de tsuyu, serve para temperar o macarrão.


Combinado básico do Omen Udon. (imagem: Omen Udon/reprodução)

Outros combinados trazem tempurá e até mesmo o oshizushi de cavalinha, um sushi típico de Kansai — região onde se localiza Kyoto — que é feito com o peixe marinado. No passado, quando não havia formas artificiais de refrigeração, o sushi raramente era comido com peixe fresco e o oshizushi é um remanescente dessa época.


Além dos acompanhamentos extras, não deixe de provar também os vários tipos de temperos à disposição. O sansho, por exemplo, é um tipo de pimenta muito usada na Ásia que, além de aromática, dá uma leve dormência na boca.


21:00, a saideira

Para fechar a noite, nada melhor que se aventurar por Pontocho, uma ruazinha com apenas 500 metros de comprimento mas que concentra quase 80 estabelecimentos, na sua maioria restaurantes, bares e cafés. A área também é um distrito de gueixas e não é raro ver uma maiko por lá.


Não estranhe se o nome do lugar te parecer familiar. Uma das teorias diz que a origem pode ter sido uma apropriação das palavra "ponto" ou uma corruptela de "ponte". Os lusos estiveram no Japão durante o século 16 e Kyoto é uma área em que não era tão raro encontrar japoneses convertidos ao cristianismo, mesmo quando a religião já era proibida.


Restaurantes e bares são a especialidade do Pontocho, um dos distritos de gueixa de Tóquio (imagem: Photo AC)

Voltando aos assuntos mundanos, parte da diversão noturna em Pontocho é encontrar um local para tomar umas. Tem bares que não são acessíveis se você não estiver com alguém que já seja frequentador. Mas não deixe que isso te desanime. A experiência costuma ser inesquecível, especialmente se você tiver a oportunidade de interagir com os locais.


Sábado

9;00, desjejum internacional

Comece o dia cedo com um café da manhã no recém aberto restaurante libanês Ki para o melhor falafel que você irá provar no Japão. O restaurante tem um menu especial de café da manhã em que serve a iguaria num prato, com verduras e legumes, pastinhas e conservas. Pode vir acompanhado de carne, frango ou legumes grelhados no forno a lenha. Tudo isso acompanhado de pão pita fresquinho (a partir de ¥1,200). Tem opção vegana. O Ki fica a 4 min da saída número 1 da estação Kiyomizu-Gojo, da linha Keihan.


10:00, água pura

Higashiyama — montanha do oeste — é o nome da região em que estamos. Aqui fica o Kiyomizudera (¥400) um dos templos budistas mais conhecidos de Kyoto, localizado na encosta do Monte Otowa. Com mais de 1200 anos de história, o espaço é tombado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Impressiona o terraço de 13 metros construído inteiramente em madeira e com encaixes, ou seja, sem pregos. Kiyomizu quer dizer "água pura" e vem da fonte que existe no Monte Otowa e foi descoberta antes mesmo do templo ter sido fundado.


Vista de baixo dos pilares que sustentam o terraço do Kiyomizudera. (imagem: Photo AC)

A parte interna do templo não é acessível aos visitantes que só podem vê-la, por fora. Os altares estão sempre iluminados por velas e têm várias esculturas sacras que remetem à Kannon, a deusa da misericórdia a quem o espaço é dedicado.


Ao lado do salão principal do templo fica o Jishu, um santuário xintoísta, ideal para quem está à procura do amor. Ali, você pode fazer oferendas ou participar de um ritual — que lembra um jogo de cabra-cega. São duas pedras distantes entre si por 10 metros. Se você conseguir caminhar de uma até a outra de olhos fechados, encontrará o amor verdadeiro. Mas não precisa entrar em pânico. Pode pedir ajuda a alguém. Mas isso tem consequências, claro. Você só vai encontrar o amor com o auxílio de outra pessoa.


Saindo do Santuário Jishu, siga pelo terraço e aproveite para apreciar uma vista panorâmica da antiga capital. Depois, no caminho para a saída, fica a fonte que nomeou o templo. Ela tem três quedas e você já pode ir se decidindo sobre qual delas vai querer beber: a que traz saúde, sucesso ou amor.


11:00, ladeiras

Além do templo ser impressionante, o caminho até ele passa por ladeiras muito charmosas, numa área de preservação arquitetônica que mais uma vez nos transporta para o Japão de antigamente. Mas, desça com cuidado. A Sannenzaka (Ladeira dos Três Anos) e a Ninenzaka (Ladeira dos Dois Anos) carregam uma sina. Diz a lenda que quem tropeça ou cai nelas pode vir a morrer em 3 ou 2 anos, respectivamente. Pesado.


Enquanto desce a ladeira, explore as lojas de lembrancinhas que oferecem coisas bem tradicionais, como cerâmicas e incenso — a Shoyeido, por exemplo, merece atenção. Quem curte o lado mais pop da cultura japonesa não vai ficar decepecionado. O destaque vai para as duas lojas vizinhas inteiramente dedicadas aos personagens dos Studios Ghibli.


Sannenzaka: tropeçar ou cair na ladeira pode trazer consequências graves, segundo a lenda. (imagem: PhotoAC)

Aproveite o passeio também para provar algumas iguarias locais. Muitas lojas oferecem doces e petiscos. Aliás, os japoneses adoram dar comidinhas como lembrança de viagem. A Itoken x SOU SOU oferece opções coloridas e bem delicadas para comer — e beber — no local e, também, docinhos lindamente embalados para presente. Caso os petiscos não sejam suficientes, a região abriga uma série de restaurantes, com gastronomia local e internacional, que merecem a visita.


E não deixe, claro, de apreciar a Pagoda Yasaka (foto no início da reportagem). Datada de 1408, a construção é considerada a torre de madeira mais antiga ainda de pé em Kyoto e é a única estrutura remanescente do Hokan-ji, um templo inaugurado no século 7.


14:00, beco sem saída

Em Tóquio é comum encontrarmos os yokocho, vielas cheias de bares, muitas vezes com a fachada toda aberta, onde é possível ver os comensais ao balcão e os cozinheiros preparando os pratos à sua frente. Já em Kyoto, o mais comum são os roji, becos sem saída, como os antigos cortiços, geralmente formados por pequenas casas e uma área aberta e estreita em comum.


Hoje em dia, muitos desses "becos" estão se transformando em espaços comerciais e o Ajiki Roji, também em Higashiyama, é especial já que a proprietária aluga os espaços a baixo custo, com o intuito de incentivar artistas e artesãos que estão começando em suas carreiras. Cada porta esconde uma surpresa e abri-las pode ser intimidativo até mesmo para os locais. Mas não tenha medo porque a garantia é de que os encontros serão únicos.


São diversas lojas. A Suzumeya, por exemplo, faz encadernação de cadernos, diários e blocos a mão. Já o Gajumaru é o ateliê da ilustradora Kitamaki, que comercializa suas obras no local. O En, por sua vez, é o ateliê da pintora e cantora Aoi Kanda. Já o Mochizuki, da artista Megumi Mochizuki, é dedicado à arte do kirigami, obras produzidas através de delicados cortes em papel.


Sorvete da Picaro Eis com o Ajiki Roji ao fundo. (foto: Meg Yamagute)

Também escondida no meio do Ajiki Roji está a Picaro Eis, uma sorveteria com misturas altamente inspiradas e que produz alguns sorvetes inusitados, combinando especiarias com sabores tradicionais japoneses. Só não é possível sugerir aqui um sabor para provar porque todo dia parece ter algo novo por lá. Então, confira o menu.


15:30, apreciação da vida

Peça alguns sorvetes para levar (¥500/copo) e desfrute-os como os locais, à beira do Rio Kamo, enquanto vê o povo se encontrando e compartilhando comidas e bebidas, as crianças brincando e pessoas de todas as idades se exercitando ou tocando algum instrumento musical. Aqui, a vida passa mais devagar enquanto o rio corre.


16:30, compras à moda antiga

Siga pela margem do Rio Kamo até a Ponte Sanjo. Ali, volte para o nível da rua e se aventure pelos shotengai, as ruas comerciais cobertas, que lembram os calçadões do Brasil e têm um pouco de tudo. Um dos mais populares é o de Teramachi, onde é possível encontrar, dentre muitas outras coisas, sebos com livros de ilustração belíssimos, mapas e ukiyo-e, as gravuras japonesas.


Conservas típicas japonesas à venda no Mercado de Nishiki. (imagem: PhotoAC)

Conectado ao shotengai de Teramachi fica o Mercado de Nishiki, conhecido como "A Cozinha de Quioto". Ali você tem a oportunidade de provar um pouco de tudo, já que muitas das lojas vendem, em pequenas unidades, os mais variados petiscos, de polvo no palito recheado com ovo de codorna a sorvete com cobertura de yuzu e mel. Se você gosta de cozinhar, aqui também é possível encontrar os ingredientes mais importantes da culinária japonesa como a pasta de soja missô, o molho de soja shoyu e bonito seco em lascas e pedaços, além de facas de boa qualidade.


18:00, jantar

Já quase no finzinho (ou começo) do Mercado Nishiki, o Omo Café é uma boa opção para jantar, com mesas e cadeiras regulares no primeiro andar e mesas baixas sobre o tatami no segundo, para quem prefere relaxar de pés descalços e sentado em almofadas. O menu oferece pratos combinados bem balanceados com carne, peixe ou frango e muitos vegetais, além de opções a la carte. Pratos combinados a partir de ¥1800.