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Arte, sombra e água quente a duas horas da capital

newsletter - Carta de Notícias por Roberto Maxwell

Roberto Maxwell

4 de jun. de 2022

Nesta edição, vamos viajar ao som da música brasileira do final dos anos 1960 e do início dos 1970, com um pezinho na psicodelia. Toque aqui ou no player abaixo.


Subir a serra era o meu programa preferido de férias. Como um carioca meio invertido, ao invés de ir à praia, eu preferia as temperaturas amenas de Petrópolis, onde vivia boa parte da minha família paterna. A Cidade Imperial, com suas montanhas e áreas florestadas, é parte das minhas melhores memórias da adolescência.


Quando me mudei para Tóquio, redescobri a sensação de ter um abrigo na serra com Hakone (lê-se “rakonê”). Os paralelos não são exagerados. A cidade da província de Kanagawa fica a menos de 2 horas de Tóquio e o caminho cheio de curvas acentuadas e debaixo da sombra das árvores me traz à memória a Rio-Petrópolis. O clima ameno, o ar mais puro e até um palácio de veraneio: tem muita coisa em comum. Por isso, acabei me afeiçoando fortemente a Hakone. Nesta “carta de notícias” quero contar um pouco sobre este refúgio nas montanhas e compartilhar com vocês os meus lugares preferidos. Vamos nessa?


Um destino diversificado

Considerada a maior estação ferroviária do mundo, Shinjuku é a parada para mais de uma dezena de linhas de trens e metrô. Mais de 3,5 milhões de passageiros embarcam e desembarcam das composições que levam para diversas partes da capital japonesa e do país. Não é exagero dizer que a estação de Shinjuku é um universo. Perder-se e se encontrar aqui é um desafio que todo mundo que escolhe viver em Tóquio precisa vencer.


É desse lugar tão simbólico que parte o Romance Car, um expresso turístico que liga Tóquio a Hakone. Os trens de design elegante funcionam como uma cápsula que transportam os toquiotas do seu mundo caótico para uma outra dimensão, em que o tempo corre mais lento. São várias saídas por dia, o que faz com que a viagem seja bastante acessível, mesmo em tempos de grande movimentação turística.




Uma das composições do trem de turismo Romance Car que liga Tóquio a Hakone (imagem: Photo AC)


Por isso, Hakone é um dos refúgios de fim-de-semana preferidos do povo de Tóquio, que costuma sair cedinho no sábado de manhã para aproveitar bem o tempo na localidade, primariamente conhecida como estância de águas termais. Mas não é só isso. Hakone aprendeu a diversificar. As trilhas na natureza, a vista do Monte Fuji, a boa comida e os museus de arte atraem todo o tipo de público, gente ávida por alguns momentos de descanso do frenesi da grande metrópole.


Os tetsudō fans — loucos por ferrovias — são um exemplo. E tem uma razão para isso. O expresso turístico de Hakone funciona com diferentes composições, cada uma delas com design diferente. Só isso já chama a atenção, mesmo dos que não manjam nada de trem. Mas tem mais. A subida da serra é feita por um pequeno mas potente trem que vai vencendo a montanha em ziguezague, alternando a direção ao longo da viagem. No final da rota, quando o gradiente já não permite mais a subida de composições maiores, os passageiros trocam para um plano inclinado que sobe 209 metros em seis estações. Os diversos modais fazem a alegria de quem adora trens e não vai ser difícil identificar os tetsudō fans no caminho. São eles —ou melhor dizendo, nós — que você vai ver tirando fotos dos trens de diversos ângulos, nas plataformas, antes dos horários de partida ou na hora do desembarque.



Flores não são incomuns nas estações montanhosas da linha Hakone Tozan

Pé de serra

Com raras exceções, o Romance Car sai pontualmente, mesmo circulando por uma das áreas de maior gargalo ferroviário de Tóquio. Pela janela do trem, é possível ver os arranha-céus de Shinjuku dando lugar às residências das zonas suburbanas que aparecem intercaladas com os prédios comerciais das estações maiores como Noborito e Sagami-Ono. Mas não demora muito para o adensamento urbano ser substituído por campos de arroz e, a esta altura da viagem, quem se senta do lado direito do trem já deve ter visto o Monte Fuji bem ao longe, por entre as casinhas.

Passada a estação de Odawara, o trem diminui a marcha e a paisagem muda completamente. Estamos começando a subir a montanha e falta pouco para chegarmos ao terminal desta primeira viagem, Hakone-Yumoto. Os 88 quilômetros são vencidos em uma hora e 40 minutos.


O fim da jornada do Romance Car é, na verdade, o início do caminho para quem visita Hakone. Isso porque Yumoto é apenas a entrada da cidade. Ainda assim, dependendo do tempo que se tem, vale a pena explorar um pouco a área a pé a área. Nas ruazinhas de trás dos pontos de ônibus ficam pequenos restaurantes e pousadas, alguns deles às margens do Rio Haya.


Seguindo pelas ruelas, dá para chegar ao Meet Geisha, um espaço dedicado a resgatar a tradição das gueixas em Hakone. Honestamente, nunca fui. Mas a cidade não tem poupado esforços em reviver esse passado, o que me soa um tanto anacrônico.


Atravessando a Ponte Ajisai, fica o hotel Yumoto Fujiya, o maior da área, além de museus, pequenos templos e santuários e a prefeitura de Hakone. Recomendo, no entanto, não perder muito tempo no bairro. Isso porque Yumoto é somente o pé da serra. A partir daqui que as diversas rotas levam às áreas da cidade com mais experiências.

Numa caminhada de cerca de 25 minutos montanha acima fica o Tenzan, uma das casas de banho termal mais interessantes de Hakone. Já conhecia a reputação do local quando recebi uma visita ilustre. O Marcello é um amigo de Belém do Pará apaixonado pelo Japão. Vir ao país era um sonho dele e visitar um onsen — nome em japonês dos banhos termais — fazia parte do longo checklist dele. Porém, o Marcello é tatuado e sabia que ia ser difícil entrar num estabelecimento destes por causa disso.


Não é segredo para quase ninguém que as tatuagens no Japão são associadas com os membros da yakuza, a máfia local. Sendo assim, muita gente — em especial mais velha e que viveu sob o terror do crime organizado em sua época áurea — teme os mafiosos. Suponho que para essas pessoas as tatuagens tragam, como se costuma dizer nos dias de hoje, gatilhos.


Some-se a isso o fato de que uma lei mais recente passou a proibir qualquer estabelecimento de fazer transações comerciais com membros da yakuza. É uma forma de evitar a compra de serviços obrigatórios de segurança ou de coleta de lixo, fontes de renda de alguns grupos criminosos. Pensa no que fazem as milícias em grandes cidades do Brasil. É mais ou menos o mesmo.


Enfim, como está todo mundo nu nos banhos de águas termais, fica difícil esconder as tatuagens, gerando uma série de situações ainda desconfortáveis para alguns. Assim, para evitar a evasão de clientes amedrontados ou o risco de atender a alguém que seja de fato mafioso, a grande maioria dos onsen proíbe a entrada de pessoas tatuadas.



Lembrança do parque de termais Yunessun (foto: Ewerthon Tobace)


Porém, na última década, essa política passou a ser severamente criticada. Antes de mais nada porque aumentou drasticamente o número de estrangeiros vivendo no país. Subiu ainda mais o número de viajantes internacionais, que se tornaram uma fonte de renda difícil de dispensar em zonas turísticas como Hakone. No Brasil e em muitos países da Europa e das Américas ter tatuagens se tornou relativamente comum. E, obviamente, a esmagadora maioria desses estrangeiros não tem nenhuma relação com a yakuza.


Além disso, a tradição de se tatuar vem perdendo popularidade entre os mafiosos. Com a repressão mais dura e os yakuza atuando cada vez mais no limite entre o legal e o ilegal, tatuados se tornam alvos mais fáceis em investigações. Assim, aos poucos, a tatuagem tem deixado de ser uma marca dos mafiosos e, como consequência, tem crescido o número de estabelecimentos que vêm abrindo mão da proibição.


O Tenzan é um exemplo. Por isso, foi o local que eu escolhi para levar o Marcello e, depois dele, vários outros amigos e clientes tatuados que queriam curtir um onsen no Japão. A casa de banhos fica num complexo que reúne, também, hospedagem e restaurante. O espaço fica às margens do Rio Sukumo, que desce serpenteando até se juntar com o Haya, num local próximo à estação de Yumoto. A área é toda florestada, os diversos prédios de madeira são muito bem integrados ao entorno.


Os banhos são separados por gênero. Então, não sei contar para vocês como é o espaço feminino. No masculino, o interno é todo revestido em madeira e o externo, com rochas escuras e cercado de verde. A iluminação, perfeita para o relaxamento, ganha um clima especial com a fumaça formada pelo contato da água quente com o exterior. Tudo é pensado para te envolver num clima de conexão consigo mesmo e com o entorno.


Ah, antes do banho, não deixe de visitar os outros prédios que compõem o espaço. Os longos corredores de madeira e a decoração mínima sempre me transportaram para um tempo-lugar muito distante.


Na alfândega

A Hakone dos dias de hoje é uma das estâncias de águas termais mais populares da Região de Kanto que engloba, também, Tóquio. Porém, a localidade tem uma importância histórica que pouca gente conhece. A cidade é cortada pela Tokaido, antiga via que conecta, desde o século 7, as cidades que chamamos hoje de Tóquio e Kyoto.


Durante o Xogunato Tokugawa (1603-1868), a atual capital japonesa se chamava Edo e era o centro do poder militar do país. Na época, os daimyo — donatários de largos domínios — eram obrigados a passar uma temporada em Edo a cada dois anos. Além disso, eles deveriam deixar na cidade sua família mais próxima: esposa e filhos pequenos. Assim, os senhores regionais eram obrigados a circular entre seus domínios e Edo, e muitos deles usavam a Tokaido.


Na área ao sul do Lago Ashi, dentro do território da atual Hakone, ficava um posto de fiscalização que funcionava como uma espécie de alfândega. A função dos oficiais de Hakone era controlar a entrada em Edo e coibir a fuga de bens e de pessoas. O local de controle é chamado em japonês de Hakone Sekisho e é pouco conhecido pelos viajantes internacionais.


Localizada às margens do Lago Ashi, perto do Porto de Hakonemachi, essa antiga alfândega é precedida por uma charmosa rua com casinhas de madeira. O passeio é cheio de lojinhas voltadas para turistas, com presentinhos e comidinhas. Aqui também fica o Sekisho Karakuri Museum, onde se pode conhecer um produto artesanal típico de Hakone. Karakuri é um tipo de caixa de madeira com um sistema de trancamento que funciona como um quebra-cabeça. Ela foi inventada há mais de 100 anos por um artesão local e acabou se tornando um dos souvenirs mais típicos de Hakone. A caixas são um charme e a engenhosidade das trancas é surpreendente. Sempre tenho dificuldades de memorizar os passos para abrí-las. O pessoal do espaço é uma simpatia e vale super a pena passar por lá.



Vista do alto da Torre de Observação doa antiga alfândega


Seguindo em frente, chegamos no posto de checagem que foi restaurado e é aberto a público. Com bonecos e algumas legendas, dá para entender bem como funcionava a repartição. Bem atrás do posto fica a torre de vigilância. A subida é meio penosa, mas a vista de cima é muito bonita. Dá até para ver um pedaço do Monte Fuji, escondido pelas montanhas que cercam o lago.


A alguns metros, fica o Museu da Alfândega, com artefatos e explicações detalhadas sobre a história do local. Aqui que a gente descobre que as esposas dos daimyo tinham estrategias para fugir de Edo, por exemplo. Quem gosta de história não deve perder.


Seguindo em frente, a gente percebe duas rotas entre as árvores. Ambas seguem na direção do Porto de Motohakone, passando pelo Onshi Koen, o Parque Imperial. Esse passeio é uma oportunidade para tomar um “banho de floresta”, ou shinrin-yoku, uma expressão muito em voga entre os japoneses.


O Onshi Koen fica no alto de uma colina e muita gente, por preguiça, passa batido pela subida. Não faça isso. Lá em cima fica uma pequena residência em estilo ocidental, construída para ser um palácio de veraneio para a Família Imperial. A entrada no prédio é franca. A casa abriga um pequeno museu e da varanda do segundo piso é possível ter uma boa vista do Lago Ashi.



Monte Fuji coberto de neve por trás das montanhas e do Lago Ashi


Mas o melhor da colina está há alguns metros de distância da casa. O caminho até lá passa por um belo jardim japonês, daqueles de pintura, com as árvores bem podadas, de copa arredondada. O passeio encantador leva até um observatório com uma ampla vista do Lago Ashi e o Monte Fuji ao fundo. Um lindo lugar para uma parada.


A caldeira e a montanha

Ver as águas tranquilas do lago e os barcos deslizando calmamente pelo espelho d’água não dão a ideia do evento gigantesco que deu origem ao Ashi. Formado há cerca de três milênios, o lago é a caldeira resultante de uma das erupções do Monte Hakone. Aliás, a presença do Monte Fuji ali não é um acaso. Toda a região é parte de um parque nacional que compreende a montanha mais alta do Japão, o seu entorno, todas as formações montanhosas até a Península de Izu e, por fim, uma série de ilhas mar a dentro. Tudo formado a partir da intensa atividade de tectônica da região.


O fenômeno fica muito mais visível quando você viaja no Hakone Ropeway. O teleférico parte da margem norte do lago, em Togendai, e segue montanha acima para cruzar chegar numa localidade chamada Sounzan. A viagem é dividida em duas seções, a primeira delas com terminal em Owakidani, um impressionante vale de gases termais.


Na subida, quem senta de frente para o lago começa a ver a paisagem ficar cada vez mais aberta, até que o Ashi não pode ser mais visto. Alguns poucos minutos depois, do lado direito, uma outra “criatura” começa a emergir. É o Monte Fuji que vai se revelando aos poucos, conforme o teleférico sobe. Do alto, dá para ver como a montanha de quase 3,8 mil metros se impõe sobre as demais.


Aliás, tem um outro lugar na região em que a vista do Monte Fuji também é de tirar o fôlego. Além do Hakone Ropeway, existe um outro teleférico na área do Lago Ashi. Ele leva até o Komagatake, um dos picos do Monte Hakone, na margem leste do lago. São cerca de 1356 metros de altitude com uma vista majestosa do Fuji. É, sem dúvida, uma das melhores visões que eu já tive do vulcão mais famoso da Ásia.



Santuário Hakone Mototsumiya, no alto do Pico Komagatake


No Komagatake também fica o Hakone Mototsumiya, um pequeno santuário xintoísta num local de grande dramaticidade. A escadaria, o portal colorado e o pequeno salão são cercados de rochas de diversos tamanhos. Aqui, o vento e a fé são fortes. No passado, este era o santuário principal da região e os monges e fiéis subiam a pé pelas rotas montanha acima para fazer suas preces. Os visitantes de hoje mantêm a tradição de empilhar pedras em reverência aos deuses, dentre eles o próprio Monte Fuji.


Ah, vale lembrar uma coisa: como muitas divindades, o Fuji é caprichoso. Isso porque a montanha é alta e acaba atraindo nuvens. De onde quer que você queira ver o Fuji em Hakone, chegue cedo. Você terá mais chance de admirá-lo pela manhã. Além disso, a visibilidade também fica melhor no inverno, quando chove menos.



Vista do Monte Fuji do Pico Komagatake


Gases vulcânicos

Assim como o Fuji, o Monte Hakone é um vulcão ativo. A diferença é que ele expele gases. Nos últimos anos, a atividade vulcânica da área cresceu muito e algumas trilhas acabaram sendo fechadas por causa disso. Mesmo o funcionamento do Hakone Ropeway chegou a ser afetado. Em dias “agitados”, os funcionários da operadora das gôndolas distribuem um kit com máscara úmida e outros itens úteis para proteger as vias respiratórias. Se a situação sai do patamar aceitável, o teleférico simplesmente para de funcionar.


Como dito lá em cima, a primeira seção da viagem termina em Owakudani. O local é um vale de encostas quase nuas e solo de argila, com partes amarelo-esverdeadas, de onde brotam jatos de fumaça. O Owakidani é como uma fissura na montanha, por onde escapa o que a Terra já não consegue mais segurar. Os gases matam lentamente as árvores na encosta, que seguem ali apenas como testemunhos de uma força que é a mesma que aquece as águas usadas nos banhos da região.




O teleférico passando no alto do Vale de Owakudani, com seus gases termais



No entorno da estação ficam observatórios, um museu, algumas lojas de souvenir e uma curta rota na montanha que culmina numa casinha. É o Caminho de Pesquisas de Owakidani que ficou fechado por cerca de sete anos por causa da atividade vulcânica. Nele, dá para ver as fumarolas mais de perto e as águas termais brotando do solo. Além disso, também é possível observar as espécies de plantas que vivem na área, em especial as gramíneas como o alecrim japonês, que são mais resistentes que os arbustos. No final da curta jornada, recomendo provar a iguaria mais famosa do local, o ovo cozido lentamente nas águas termais que, com sua casca preta, ganha também um certo charme.


Luxo e gastronomia na serra

Como boa estância de águas termais, Hakone é um excelente lugar para comer e dormir. Existem hotéis em estilo ocidental na região, mas muita gente opta por ficar nos ryokan (lê-se com o ‘r’ brando como em ‘caro’), pousadas com serviço e modo de dormir no estilo japonês.


Na maior parte dos casos, uma pessoa costuma ser designada para o cuidado com cada quarto. Quase sempre uma mulher impecavelmente vestida de quimono, ela fica responsável por recepcionar os hóspedes, servir o jantar e o café da manhã na acomodação e preparar os futon após o banho. (Sim, é comum entrar no ofurô, os banhos de imersão, após o jantar.) Aliás, o espaço dos aposentos é bem interessante. Com piso de palha no estilo tatami, o quarto é sempre minimalista em termos de decoração e mobiliário. Assim, pode ser usado para várias atividades.



Corredor do Gora Kadan, um dos mais luxuosos ryokan de Hakone


Os banhos são uma atração a parte. Quem é mais reservado pode optar por hospedagens que oferecem quartos com ofurô. Essa é uma opção apenas para os ryokan de luxo. Hospedagens mais em conta oferecem os banhos coletivos, separados por gênero, que também existem nos locais de alto custo. Além disso, tem acomodações que oferecem banhos privados fora dos quartos que podem ser alugados por períodos.


Em todos os casos, os japoneses se banham nus e sei que isso acaba sendo um problema para muitos brasileiros. Fico com dó de saber que tem gente que sente vergonha de usar os banhos por causa disso. Já recebi mensagens de pessoas que se sentem constrangida por causa do peso, por exemplo. Quando morava no Brasil, eu não frequentava as praias do Rio pelo mesmo motivo. Sendo gordo, sei como é lidar com o corpo e a autoaceitação é um processo contínuo para mim. Mas os anos de vida no Japão me ensinaram que a água não discrimina ninguém.


Então, se você precisa de mais um tempo para se acostumar com a ideia de se banhar na frente de outras pessoas, escolha um ryokan que tenha banho privado. Esses banhos podem ser usados por qualquer hóspede e você só precisa reservá-los com antecedência. Use o canal de comunicação com o hotel para isso. Em alguns casos, o acesso aos banhos privados é gratuito. Mas há ryokan que cobre a parte o uso desses espaços.


As pousadas japonesas também são uma oportunidade de conhecer melhor o que se convencionou chamar de washoku, a alta gastronomia do Japão. Em muitos casos, as refeições são servidas no estilo mini-kaiseki, com pequenas porções com diferentes ingredientes e preparos. Os menus são sazonais.


Tenha em mente que será uma experiência gastronômica diferente. Ainda assim, você pode informar na reserva ou no check-in sobre alergias ou alimentos não desejados. Depois de anos de experiência lidando com viajantes brasileiros, passei a recomendar a pessoas que têm muitas restrições alimentares que pensem bem antes de optar por uma ou outra hospedagem. Você sempre pode escolher a estadia sem refeições, claro. Mas é preciso considerar que sair para jantar em muitas áreas de Hakone pode ser um desafio. Portanto, veja bem a localização e os serviços oferecidos pelo ryokan para que a sua experiência seja excepcional.


Aliás, é por conta dessa questão do jantar que eu gosto muito de ficar em Gora. No bairro, estão dois restaurantes que eu adoro e ambos levam a assinatura do chef-celebridade Nobuyuki Matsuhisa: o Itoh by Nobu e o Gora Brewery & Grill. Com perfis diferentes, os estabelecimentos são opções para quem não está afim de mergulhar muito fundo na gastronomia japonesa.



Salada com crocante de pele de peixe, lascas de bonito curado e verduras do Gora Brewery & Grill: comida fusion

O Itoh by Nobu é um restaurante de teppanyaki, ou seja, que serve carnes e outros ingredientes preparados na chapa. É uma oportunidade para quem quer provar o wagyu, a carne bovina altamente marmorizada do Japão.

Já o Gora Brewery & Grill é cozinha fusion, com peixes, carnes e vegetais preparados com técnicas locais e internacionais. Além da boa comida, o espaço produz sua própria cerveja. Na entrada, a casa oferece um charmoso ashiyu, um escalda-pés que eu adoro. Não deixe de levar uma toalhinha.


Artes em destaque

Uma das coisas que eu acho mais interessantes em Hakone é o modo como a cidade conseguiu ir além do que se espera de uma estância de águas termais. E o caminho para atingir esse patamar foi investir em arte. São diversos museus espalhados pela localidade, sendo o mais conhecido deles o Hakone Open Air Museum, dedicado primariamente à escultura.


Primeiro museu ao céu aberto do Japão, a instituição começou a funcionar em 1969. São mais de mil esculturas no acervo e cerca de 100 delas ficam em exposição permanente. Obras de nomes como Miró, Henry Moore e outros artistas de diversas partes do mundo estão espalhadas pelo imenso jardim que é um convite para uma boa caminhada.



Miss Black Power, obra de 1968 da francesa Niki de Saint Phalle


Além disso, existem os pavilhões que recebem exposições permanentes e temporárias. O mais conhecido deles é o do Picasso, com obras menos conhecidas e muitos croquis do artista espanhol. Nos outros espaços, rolam exibições temáticas e atividades de educação artística voltadas para a criançada.


Aliás, os pequenos não apenas têm todo o circuito do jardim para percorrer, como um pavilhão todo em madeira e uma escultura em acrílico inteiramente dedicados a eles. Não tem criança que não se divirta com tanto espaço! Além disso, o museu também tem um escalda-pés. No local, eles vendem uma toalhinha para quem esqueceu de levar a sua. Mas, enfim, você já está avisada.



Um dos espaços dedicados às crianças no Hakone Open Air Museum


Acho Hakone um dos destinos de viagem mais bacanas dentro do Japão. Poucos lugares fora das grandes metrópoles são tão bem preparados para receber turistas no país. E, melhor, oferecendo também opções que passam longe do turismo de massa. Já vi gente que decidiu não ir a Hakone por ter visto o barco pirata que cruza o Lago Ashi. Não caia nessa. Longe de ser uma armadilha pega-turista, a embarcação faz parte da infraestrutura de circulação da cidade, além de oferecer um belo e tranquilo passeio, uma oportunidade de contemplar as belezas locais sem pressa. Aliás, essa deve ser a tônica da sua estadia em Hakone.


Adoro programas de gastronomia. Na primeira temporada do Chef’s Table da Netflix, o argentino Francis Mallman aparece assando um peixe um banquete, na beira de um lago. Toda vez que viajo no barco pirata de Hakone me pego escaneando as margens do Ashi em busca de um pedacinho de terra para construir uma casa de madeira, montar uma assadeira de lenha e preparar uns crepes cheios de doce de leite, como os que o Mallman faz no programa. Esse é o meu sonho de aposentadoria.



Barco pirata: apesar da aparência, não é armadilha para turista


Serviço

Como chegar em Hakone?

Partindo de Shinjuku, embarque no Romance Car da companhia ferroviária Odakyu. São quase 2 horas de viagem até Hakone-Yumoto, a entrada da cidade. Também é possível ir de trens locais, que custam um pouco mais barato. Basta embarcar no trem expresso da linha Odawara, também operada pela Odakyu. Vá até o terminal Odawara, onde você pode fazer baldeação para a linha Hakone Tozan até Yumoto.


Como circular em Hakone?

Antes de tudo, compre o Hakone Free Pass. O custo para dois dias é de ¥6100 (cerca de USD47), se você estiver partindo de Shinjuku. Mesmo que você faça um bate e volta, vale muito a pena. Isso porque o passe inclui todo o transporte que você vai precisar para fazer o circuito da cidade, inclusive o Romance Car, do qual você paga apenas a taxa de uso do trem expresso limitado, cerca de metade da tarifa.


Com o passe você pode partir de Shinjuku e ir até Yumoto de trem. Em seguida, pode optar por usar o ônibus para ir até a área do Lago Ashi e da antiga alfândega. Dali, você pode embarcar no barco pirata até o Hakone Ropeway. De teleférico, você chega a Owakudani e, depois, a Sounzan, onde você embarca no plano inclinado para Gora, onde ficam os restaurantes do chef Nobu, muitos dos ryokan mais legais e o Hakone Open Air Museum. Depois, você pode usar o trem para descer pela belíssima linha Hakone Tozan até Yumoto. Essa rota circular é a mais clássica de Hakone. Mas qualquer que seja o seu roteiro, é bem provável que vá usar vários transportes públicos e, neste caso, o passe vai valer a pena.



Hakone Free Pass, válido em vários modais de Hakone


Só fica de olho em uma coisa. Os transportes em Hakone são explorados por duas empresas. O passe vale para a Hakone Tozan/Odakyu. A Izu Hakone Bus também opera linhas de ônibus, rotas de barco no lago e o teleférico de Komagatake. A confusão quase sempre acontece nos ônibus, que fazem rotas parecidas. Então, tenha atenção aos carros que têm cor branca e azul. Eles não aceitam o Hakone Free Pass. Na dúvida, faça sinal, já que os horários são limitados. Como o embarque é pela porta dianteira, o máximo que vai acontecer é o motorista não te deixar embarcar quando você mostrar o passe.


Onde ir?

São tantas opções do que fazer em Hakone e um dia, sem dúvidas, não é suficiente. Montei um mapinha maroto com tudo o que eu indico na cidade, de hospedagem a restaurantes. Confira aqui.

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