Macacos relaxando na neve?
- Roberto Maxwell

- há 1 dia
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Banhos termais no interior do Japão atraem os animais e revelam uma complexa interação entre homem e natureza

Nas fotos do céu azul não é possível transmitir a sensação térmica do lugar. Basta olhar para o chão para ver a cobertura branca contradizendo o sol que brilha intensamente no horizonte. A caminhada na neve nem é longa, mas cansa.
Seria pior sem a imersão na natureza. Caminhar entre os pinheiros é observar as frestas de luz que atravessam os troncos altos e as folhas verdes dessa conífera tão comum nas montanhas japonesas. Os japoneses têm uma palavra para essa luz suave, naturalmente filtrada: komorebi.
Shinrin-yoku é o “banho de verde” que tomamos ao caminhar por cerca de meia hora sob temperaturas próximas a zero por essa floresta — a única forma de chegar a um dos pontos de maior atração nas montanhas da província de Nagano. Aqui, gente do mundo todo vem ver de perto uma das imagens mais difundidas do inverno japonês: macacos imersos em águas termais.
É fácil se identificar com outros primatas. Somos semelhantes em muitos aspectos. Por isso, é tentador concluir que, como nós, os macacos-da-neve japoneses entram nas águas termais para suportar o frio rigoroso do inverno. Não é bem assim. Eles são conhecidos por serem a espécie de primatas mais resistente a baixas temperaturas do planeta.
O corpo dos macacos-da-neve é coberto por uma pelagem espessa. Sob a pele, uma camada de gordura também contribui para manter o calor corporal. Além disso, esses animais desenvolveram uma organização social em que dormem juntos nas épocas mais frias, o que ajuda a conservar calor mesmo nas madrugadas de temperaturas negativas.
Então, por que os macacos japoneses entram nos banhos termais?
A resposta passa menos pelo frio em si e mais por mudanças ambientais, por um histórico pouco harmonioso na relação entre humanos e natureza e por um desfecho que, visto de longe, parece feliz — mas é, sobretudo, resultado de adaptação, aprendizado e convivência.

O Vale do Inferno
Jigokudani é o nome comum dado a diversas fontes termais espalhadas pelo território japonês. Significa, literalmente, “vale do inferno”: o lugar onde as forças do interior da Terra chegam aos sentidos humanos por meio do vapor, do enxofre e da água quente. O Parque dos Macacos fica no Jigokudani das montanhas da província de Nagano, a cerca de três horas de Tóquio.
Zonas montanhosas costumam ser escassamente habitadas no Japão. Existe uma visão antiga segundo a qual montanhas e florestas são espaços habitados por divindades, e essa percepção acabou funcionando, na prática, como um mecanismo de proteção ambiental — especialmente da água.
Ainda assim, não é raro encontrar pequenas comunidades em vales férteis ou encostas. Em japonês, são chamadas de satoyama e se organizam de modo a coexistir com a natureza ao redor.
No Jigokudani de Nagano, as mudanças começaram no final dos anos 1950, com a expansão do turismo de esqui. Novos resorts passaram a ocupar áreas de floresta, afetando o habitat dos macacos e de outros animais da região. Como consequência, os símios passaram a buscar alimento nas plantações do vale, causando prejuízos aos agricultores.
Essa fricção chamou a atenção de um homem, Sogo Hara, funcionário da companhia ferroviária local. Ao perceber que os macacos estavam em risco, ele passou a buscar soluções que os afastassem dos assentamentos humanos sem deixá-los à própria sorte.
Tudo começou com um ryokan da região oferecendo maçãs para atrair os macacos de volta para a montanha. É provável que, a partir daí, eles tenham se aproximado das águas termais e aprendido a entrar nelas por acaso — atrás das frutas que eventualmente caíam na água — e por observação.
Em 1964, Hara oficializou a criação de um parque para abrigar o bando, afastado do vale o suficiente para evitar ataques às plantações, mas próximo o bastante para permitir a observação na natureza. O famoso banho de águas quentes surgiu anos depois, como forma de afastar os animais das fontes usadas pelos humanos.
Assim surgiu o Vale dos Macacos de Jigokudani como conhecemos hoje — o único lugar do planeta em que primatas não humanos se banham em águas termais.

Planeta das Macacas
Os macacos que vivem em Jigokudani não formam um grupo qualquer. Os bandos dessa espécie seguem uma organização matrilinear. As fêmeas permanecem no grupo onde nascem e constroem ali toda a sua vida social. Filhas herdam posição, relações e proximidade com o centro do bando. Os machos, ao atingir a maturidade, tendem a sair e circular entre diferentes grupos. O que se vê no vale é uma sociedade construída ao longo do tempo, sustentada pela permanência das fêmeas e pela memória coletiva que elas carregam.
No banho termal, onde várias macacas e seus filhotes dividem o espaço de água quente, a relação vai além da proximidade física. Existe ordem e estrutura. O acesso ao ofurô acompanha a posição social dentro do grupo, e o tempo de permanência na água também. Mesmo nesses momentos, a organização social do bando permanece presente.
Parte desse entendimento vem do trabalho de uma pesquisadora brasileira. Rafaela Takeshita acompanhou o comportamento dos macacos de Jigokudani ao longo das estações. Seu trabalho mostra que o uso do ofurô aumenta nos períodos mais frios. Mas não porque a espécie tenha dificuldade em lidar com o frio. A doutora Rafaela descobriu que o comportamento de banhar-se em águas termais está associado à redução do estresse fisiológico causado pelo desafio de viver em baixas temperaturas. A água quente aparece como um recurso incorporado ao cotidiano do grupo dentro de um ambiente exigente.
Quando tudo isso se sobrepõe — geografia extrema, presença humana, adaptação comportamental e organização social complexa — Jigokudani deixa de ser apenas um cenário. Ou apenas um ponto turístico. Na verdade, o vale se torna um lugar raro onde é possível observar macacos japoneses vivendo livres, respondendo ao ambiente à sua própria maneira. Ver esses animais, que se parecem tanto conosco, na natureza já seria especial por si só. Testemunhar esse comportamento é o que transforma a experiência no lugar em algo único.

SERVIÇO
Parque dos Macacos de Jigokudani santuário natural de macacos-da-neve nas montanhas de Nagano
Nagano-ken Shimotakai-gun Yamanouchi-machi Hirao 6845 [mapa] ¥800 (adultos) / ¥400 (crianças) www.jigokudani-yaenkoen.co.jp






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