Tendências no Japão 2026: a sua próxima viagem será sobre você
- Roberto Maxwell

- há 6 horas
- 7 min de leitura
Descanso, propósito, narrativa e curadoria estão mudando
a forma de viajar pela Terra do Sol Nascente

Você começa a planejar a próxima viagem e, de repente, parece que só existe um assunto. O algoritmo das redes sociais passa a repetir o mesmo destino em variações quase idênticas, quase sempre embaladas por influenciadores que se apresentam como descobridores de algo que, até ontem, ninguém conhecia.
Essa enxurrada disputa espaço com anúncios de companhias aéreas, ofertas de agências, sugestões de amigos prontos para indicar um restaurante “imperdível” — para eles. São muitas vozes e poucos diálogos. No meio disso, você anda como quem pisa em terreno instável: cercado de opções, opiniões e expectativas, mas com pouco espaço para escutar o que realmente quer. O planejamento mal começou e o cansaço já apareceu.
Muita gente percebeu que o excesso de telas e informação tem atrapalhado a própria ideia de viajar. E começou a reagir. Em vez de fugir da realidade, essas pessoas passaram a viajar para entender melhor o que estão vivendo. Aos poucos, deixam de tratar a viagem como consumo rápido de lugares e passam a usá-la como forma de reorganizar tempo, corpo e atenção.
Esse deslocamento de olhar vem mudando silenciosamente o turismo e vai influenciar diretamente a forma de viajar pelo Japão em 2026. Silêncio, descanso, propósito e ritos pessoais deixam de ser exceção e passam a orientar escolhas — não como moda, mas como resposta a necessidades reais.

Dormindo em ienes
Palavra-chave em 2025, desconectar começa a ganhar outro sentido dentro do turismo. Bem-estar, descanso e sono — antes vistos quase como inimigos de uma viagem internacional (“quem vai dormir em ienes?”) — passam a integrar o vocabulário de quem sai de férias, especialmente para o Japão. A começar pela distância.
Quem sai de São Paulo rumo a Tóquio dificilmente enfrenta menos de 30 horas de deslocamento. Paradas em conexões vêm sendo usadas como tentativa de amenizar o cansaço e o jet lag. São paliativos que alguns dizem funcionar. Mas a verdade é que uma escala nos Estados Unidos, na Europa ou no Oriente Médio acrescenta mais uma camada de decisões: quantos dias parar, onde ficar, o que fazer. O que deveria ser descanso pode virar mais trabalho.
Diante disso, talvez faça mais sentido chegar logo ao Japão e usar os primeiros dias para desacelerar. Transformar o período de adaptação em tempo de cuidado, e não em mais um roteiro a cumprir.
Os japoneses são conhecidos por levar o trabalho ao limite — e, por isso mesmo, desenvolveram formas de lidar com o desgaste. A mais conhecida delas são os banhos de imersão. Mesmo em apartamentos pequenos, é comum encontrar ofurôs, banheiras pensadas menos para higiene rápida e mais para relaxar depois do dia.
Outro refúgio são os sentôs, banhos públicos urbanos que perderam espaço ao longo do século 20, com a melhora das moradias, mas que hoje ressurgem como lugares de pausa. Abertos também a viajantes, eles oferecem uma porta de entrada simples — e culturalmente rica — para a experiência do banho japonês.

Mas os sentôs são só o começo. Deitado sobre um arquipélago vulcânico, o Japão é o país com maior número de fontes termais do mundo. Ricas em minerais, essas águas são associadas a efeitos regenerativos que, mesmo sem comprovação científica plena, fazem sentido no cuidado com músculos, articulações e pele.
Chamadas de onsen, as águas termais podem ser encontradas em quase todo o país, de hotéis mais ocidentais a ryokan tradicionais, com serviços que incluem banhos privados, massagens, experiências culturais e comida local. Uma forma lenta de alinhar corpo e espírito ao lugar — e deixar que a viagem comece, de fato, por dentro.
Você não é todo mundo
Abrir mão de passar muitos dias em destinos mais conhecidos ainda é difícil para quem viaja acreditando que existe um Japão essencial, que precisa ser visto a qualquer custo numa primeira visita. Nesse raciocínio, todo mundo acaba passando pelos mesmos lugares, mesmo quando eles não dizem muito sobre quem está viajando.
É aí que entra a frase de mãe que dá título a esta seção. Se você não é todo mundo, por que ainda viaja como se fosse? Quando o viajante abandona a ideia de um roteiro obrigatório, ele se afasta da massa e começa a encontrar o sentido da própria viagem. Os lugares deixam de ser apenas atrações e passam a ser vividos como o que de fato são: territórios com história, gente e ritmo próprios. Cada visita ganha peso — e a viagem, profundidade.
O Japão é especialmente fértil para quem viaja com intenção. É um país que permite ir do ingrediente ao prato, do barro ao objeto, da matéria ao gesto. Apesar do envelhecimento de muitos artesãos ameaçar a continuidade de certos ofícios, regiões produtoras de cerâmica, madeira e outros saberes seguem resistindo e entendendo que receber visitantes é também uma forma de continuar existindo. O mesmo vale para produtores de saquê, shochu, missô, shoyu e outros pilares da gastronomia japonesa.

Também não faltam caminhos para quem se interessa por arte e arquitetura. Se Naoshima já se tornou popular a ponto de tornar difícil conseguir vaga no disputado Benesse House, outras regiões seguem apostando no que se pode chamar de arte inconveniente: projetos afastados dos grandes centros, de acesso menos simples, mas profundamente conectados ao território. Há iniciativas espalhadas por todo o arquipélago que propõem encontros entre arte, paisagem e comunidade.
Os interesses podem ser muitos — e viajar com propósito não significa escolher um único tema para toda a viagem. Os melhores percursos são aqueles em que diferentes curiosidades se cruzam. No Japão, é perfeitamente possível criar uma viagem de ritmo calmo, mas nada monotônico.
Muito além do hedonismo
Que uma viagem deva ser fonte de prazer ninguém discorda. O problema começa quando ela vira um roteiro engessado, montado para que tudo aconteça “do jeito certo”, sem espaço para surpresa ou desvio. Nesse esforço de perfeição, muita gente passa a confiar apenas no que já foi aprovado por outros. Não é por acaso que o restaurante do reel — lotado de pessoas que viram o mesmo vídeo que você — passa a valer mais do que a curiosidade de entrar numa portinha desconhecida. O FOMO atropela a fome real, e a viagem vai ficando pasteurizada.
Mas há quem esteja começando a virar esse jogo. Em vez de ir apenas ao lugar que está bombando, essas pessoas se perguntam o que significa estar ali. “Quem já veio” perde importância; a pergunta passa a ser “por que eu estou aqui”. Assim, o viajante deixa de acumular sensações — e fotos — e começa a entrar na narrativa do lugar que visita.
Sempre cheio de turistas, o Templo do Pavilhão Dourado, o Kinkakuji, em Kyoto, é um bom exemplo disso. Dono de um dos jardins mais belos da antiga capital, ele é invadido diariamente por milhares de pessoas em busca da mesma imagem: a construção dourada refletida na água.
A maioria vai embora satisfeita com o registro. Mas quem viaja para além do hedonismo descobre que está diante de um dos mais belos jardins de percurso do Japão, desenhado ao redor de um lago com pequenas ilhas e vegetação minuciosamente cuidada. É um espaço que pede mais do que um olhar rápido. Colocar-se disponível para essas camadas é o que diferencia quem está apenas passando de quem está realmente viajando.

No Japão, essa mudança de olhar não se limita à história. O país tem sido cada vez mais procurado por gente interessada em cinema, literatura e outras artes narrativas, em busca dos cenários de filmes, livros, séries e mangás. Tornar físico aquilo que antes era ficção virou uma forma de experimentar o Japão com mais densidade.
E há ainda outro caminho: prestar atenção ao que parece banal. Observar os rituais do cotidiano também é uma forma de viajar. Basta reparar no momento em que um trem se prepara para partir numa grande estação. Em meio à pressa dos passageiros, o condutor na plataforma executa uma coreografia precisa de gestos e apontamentos. Aquilo não é só procedimento técnico — é a imagem viva de uma sociedade em funcionamento.
Da autonomia total à entrega consciente
Entre IAs e profissionais humanos, muitos viajantes passaram a buscar apoio para organizar a viagem diante da avalanche de informação — sobretudo a que vem das redes sociais. Cada vez mais potentes, as ferramentas de inteligência artificial podem ser boas aliadas quando usadas com critério, principalmente na parte logística. O risco aparece no que já se pode chamar de turismo algorítmico: quando todo mundo usa as mesmas ferramentas para escapar das escolhas, os destinos tendem a se repetir.
Nesse cenário, cresce a procura por gente capaz de oferecer curadoria. Enquanto o algoritmo trabalha por padrões, o olhar humano procura exceções. Isso inclui desde a escolha de experiências e restaurantes até viagens-surpresa e roteiros no estilo omakase, em que o percurso é construído a partir dos interesses do viajante. Curadoria não é terceirizar decisões: é desenhar um caminho que leve em conta contexto, desejo e ritmo.
No fundo, todas essas mudanças apontam para a mesma direção: menos ruído, menos pressa, menos obrigação de “dar conta de tudo”. O ganho é tempo para si e para os próprios gostos — e, sobretudo, mais presença. A temporada de 2026 no Japão tende a se desenhar assim: experiências vividas com profundidade. Entre descanso, propósito, narrativa e curadoria, não muda apenas o mapa da viagem, mas a forma de estar nela. É desse deslocamento — de fora para dentro — que nascem as tendências que começam agora a se tornar visíveis.

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