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Kurokawa Onsen — o Japão e a arte de descansar

Um refúgio termal na ilha de Kyushu para quem busca silêncio, tempo e outra forma de viajar pelo Japão


Banho a céu aberto do ryokan Gekkoju, em Kurokawa Onsen (foto: Gekkoju)
Banho a céu aberto do ryokan Gekkoju, em Kurokawa Onsen (foto: Gekkoju)

Devo confessar que sou um recém-convertido à cultura do onsen. Acabei de retornar do Japão, sendo que o meu principal objetivo na viagem era descansar depois de um ano extremamente pesado no trabalho. Estava realmente esgotado, precisando relaxar profundamente e recarregar as baterias para começar um novo ciclo.

Apesar de ter ido várias vezes ao Japão, eu nunca tinha real e literalmente mergulhado na cultura do onsen. Isso mudou na minha última viagem ao país.


Presente dos deuses

O Japão foi brindado pelos seus kamis — os espíritos e divindades originais do xintoísmo — com aproximadamente 20 mil fontes termais que podem ser aproveitadas para banhos. O país está situado no encontro de quatro placas tectônicas, o que ocasiona intensa atividade geológica, aquecendo e enriquecendo com minerais as águas do subsolo. Essas águas brotam em altas temperaturas e são usadas para os banhos — e também às vezes para cozinhar ovos, os famosos onsen tamago, que, bem a propósito, são uma delícia.


Tendo em vista esse cenário natural, desenvolveu-se, desde muitos séculos, uma cultura riquíssima de banhos termais para restaurar o corpo e a mente. Há relatos de samurais se beneficiando dos banhos após as suas batalhas, doentes se recuperando e pescadores se aquecendo depois da exposição às intempéries. A relação do país com as águas termais é tão relevante que o governo japonês está submetendo a cultura de banhos de onsen à UNESCO com o objetivo de declará-la Patrimônio Imaterial da Humanidade.


A cultura do onsen inclui um ritual: tomar um banho antes da imersão nas águas quentes e relaxantes. O mergulho nas águas termais pressupõe que a pessoa esteja inteiramente nua, sem joias ou acessórios. Todos são iguais no ambiente, e os banhos ali são para relaxar, não para se lavar.


Banho a céu aberto de um dos quartos do Gekkoju (foto: Roberto Maxwell)
Banho a céu aberto de um dos quartos do Gekkoju (foto: Roberto Maxwell)

Tatuados, em geral, não podem frequentar os banhos coletivos, com alguns locais como exceção. Nestes casos, a melhor solução é reservar um quarto com banho privativo ou um ofurô privado. Mas cuidado: nem todos os ryokan têm essas opções.


Pois bem, cansado do jeito que estava e sabendo (teoricamente) de todos os benefícios associados aos banhos, venci os obstáculos mentais que me levaram a, até aquele momento, não ter escolhido ficar alguns dias em uma pousada ryokan, que é um dos melhores modos de mergulhar na cultura do onsen.


Passada a experiência, vou cravar: deveria ter feito isso MUITO antes.


Águas para relaxar

Para a ocasião, escolhi uma pequena e relativamente remota estância na ilha de Kyushu, Kurokawa Onsen. O lugar não é superconhecido de turistas internacionais, sendo mais usado como destino doméstico para os japoneses. A escolha foi proposital. O isolamento do lugar e a ausência do turismo de massa de estrangeiros eram exatamente o que eu queria: um lugar onde o meu espírito pudesse se desconectar e ter uma experiência efetivamente japonesa.


Águas termais são diferentes entre si. Cada lugar tem a sua própria geologia, o que influencia na composição do solo e, por consequência, no tipo de água que jorra das nascentes. Uma mesma estância pode, inclusive, ter mais de um tipo de água termal; e como o conteúdo mineral de cada uma é diferente, os efeitos no corpo também serão.


Em Kurokawa Onsen, as águas são levemente alcalinas e sem exagero de minerais, tornando-as quase transparentes e próprias para o meu objetivo: relaxamento profundo e recuperação física e mental.


A escolha do local também foi pensada em razão do clima de Kyushu, a grande ilha mais ao sul do arquipélago japonês. Lá, os invernos são menos frios que no resto do país. Para se ter uma ideia, estive lá em dezembro, e as temperaturas eram compatíveis com os dias mais frios do inverno paulistano. Nada exagerado, mas altamente convidativo para entrar nas águas com temperaturas de até 40 °C.


Rio que corta a estância de águas termais de Kurokawa Onsen (foto: Ranmaru/Photo AC)
Rio que corta a estância de águas termais de Kurokawa Onsen (foto: Ranmaru/Photo AC)

Banho com exclusividade

O estabelecimento eleito para a minha experiência inicial nesta viagem foi o Kurokawa Onsen Gosho Gekkoju. O hotel é superexclusivo, com apenas oito quartos em uma área de aproximadamente 15 mil metros quadrados. O serviço é absolutamente personalizado, e o ryokan tem um restaurante próprio, com uma cozinha bem interessante.


Cada um dos quartos tem atrativos únicos, e todos contam com um banho a céu aberto e outro fechado. Além dos banhos privativos, o hotel tem outros dois outros espaços de imersão, que podem ser reservados para uso exclusivo durante janelas de 45 minutos.


O primeiro deles imita o ambiente de uma caverna, com um eco que me fez, literalmente, cantar. Foi uma experiência lúdica e divertida, que mostra que a quinta série não morreu em mim.


Já o segundo banho é um espaço a céu aberto, bem no alto da colina onde fica o ryokan, de onde se podem ver as estrelas à noite. Tive sorte de reservá-lo numa noite clara, sem nuvens, e observar o céu estrelado mergulhado nas águas quentes. Foi uma experiência à parte.


O Gekkoju foi o melhor hotel fora de um grande centro urbano em que eu estive no Japão. Gostei tanto que já estou me organizando para voltar e passar uma semana apenas com os meus livros, os banhos e o silêncio.


Ofurô privativo em um dos quartos do ryokan (foto: Gekkoju)
Ofurô privativo em um dos quartos do ryokan (foto: Gekkoju)

Relaxando fora da rota

Ir para o interior e sair da rota óbvia Tóquio–Kyoto–Osaka é essencial para qualquer viajante, até mesmo (ou em especial?) para o de primeira vez no Japão. Essas cidades são bem importantes, mas estão lotadas de turistas, o que impede de viver uma experiência autenticamente japonesa.


Kurokawa Onsen me proporcionou, entre outras coisas, almoços em lugares frequentados pelos locais, com comida ótima e vistas incríveis. Numa das saídas, por exemplo, descobri um pequeno santuário xintoísta, lindíssimo e completamente fora do roteiro “clássico” dos influenciadores. Esses, aliás, têm feito a viagem parecer cada vez mais com um checklist a ser cumprido do que com efetivas férias. De obrigações já bastam as que eu tenho no trabalho; nas férias, eu quero me livrar do Outlook — e amém!


Vi uma dezena de pontos turísticos famosos? Não. Comi em restaurantes estrelados? Também não. Fiz compras alucinantes de coisas que estão baratíssimas em função do iene fraco? Negativo. Por outro lado, vivi a cultura do onsen, descansei, li meus livros, entrei em contato comigo mesmo e apaziguei a minha alma, que estava inquieta depois de um ano pesado. Foram três noites e quatro dias em Kurokawa Onsen, e valeu cada segundo.


Recomendo vivamente uma parada em um onsen por uma ou duas noites para qualquer um que chega ao Japão a partir do Brasil. Depois de mais de 24 horas de voo e com o espírito agitado, você merece esse tempo. O Japão é um país muito contemplativo, e uma parada num onsen vai te ajudar a entrar em sintonia com o lugar.


Pequeno santuário nos arredores do Gekkoju (foto: Roberto Maxwell/Tokyo Aijo)
Pequeno santuário nos arredores do Gekkoju (foto: Roberto Maxwell/Tokyo Aijo)

SERVIÇO

Kurokawa Onsen

Como chegar? A partir de Tóquio, o acesso mais prático é voar até Fukuoka. Do aeroporto, segue-se de ônibus expresso até Kurokawa Onsen, em um trajeto de algumas horas por áreas montanhosas de Kyushu.


Kurokawa Onsen Gosho Gekkoju

ryokan de alto padrão em Kurokawa Onsen

Kumamoto-ken Aso-gun Minamioguni-machi Manganji 6777-2 [mapa] ¥¥¥¥



Eduardo Takemi é paulistano naturalizado; advogado por amor, cozinheiro nas horas vagas e viajante por paixão. Siga as viagens e aventuras gastronômicas dele no Instagram @eduardo.takemi.

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