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O Japão que permanece após a pandemia

Em seu primeiro livro, Mirela Mazzola transforma anos difíceis no Japão em literatura


A jornalista Mirela Mazzola, autora de A Cerejeira Permanece
A jornalista Mirela Mazzola, autora de A Cerejeira Permanece (foto: Giovana Greka)

Viver no Japão é uma experiência marcante em qualquer circunstância. Fazê-lo durante uma pandemia se torna um marco que permanece. No final de 2019, Mirela Mazzola desembarcou em Kyoto para uma estadia de dois anos. O timing parecia perfeito. O Japão estava na crista da onda: figurava em listas de destinos globais e, em poucos meses, sediaria pela segunda vez os Jogos Olímpicos de Verão.


A mudança incluía um projeto pessoal. Com passagens por veículos como o Guia Quatro Rodas e outras publicações da Editora Abril, Mirela via na temporada a oportunidade de escrever sobre o Japão e compartilhar seu olhar com o público brasileiro.


Tudo ganhou outros contornos com a pandemia. O Japão fechou suas fronteiras e o que poderia ser pauta do lado de cá foi abafado por uma realidade mais urgente no Brasil, marcada por uma crise sanitária que resultou em mais de 700 mil mortes. Adiados, os Jogos Olímpicos acabaram sendo realizados um ano depois, com estádios vazios.


A vida, porém, seguiu no Japão. O que se desenhava como um período de isolamento acabou se tornando uma vivência singular para Mirela. As descobertas, os encontros e o choque cultural — comuns a quem vive fora do seu país — ganharam ali outras camadas. De volta ao Brasil, e já depois da primeira gravidez, Mirela começou a elaborar a experiência por meio da escrita. O resultado é A Cerejeira Permanece: Um Relato em Oito Estações, seu primeiro livro, recém-lançado pela Litteralux. Pouco antes da publicação, a autora — hoje mãe de Tereza, de 3 anos, e à espera de Maria Elisa — conversou comigo. Confira.


O livro nasce de uma experiência vivida no Japão, mas não é um guia nem um diário convencional. Em que momento você percebeu que essa vivência precisava virar literatura?

Como jornalista, foi frustrante viver essa experiência e não poder compartilhá-la plenamente, fosse nas minhas redes ou como trabalho remunerado, já que o mundo, especialmente o Brasil, atravessava a pandemia. Não havia clima. Organizar essa temporada em um livro foi a forma que encontrei de fazer isso. Como mulher, senti a urgência de elaborar o período nipônico depois do puerpério da minha primeira filha, já que engravidei logo que voltei ao Brasil e não tive tempo de revisitar essa passagem tão relevante da minha vida. Apesar de ter sido um processo íntimo, não quis fazer do livro algo sobre mim, e, sim, um relato autobiográfico permeado por informações históricas e culturais apuradas com rigor jornalístico. 


O subtítulo fala em “oito estações” e transita entre tempos distintos. Como essa estrutura dialoga com a percepção japonesa do tempo, que é menos linear e mais cíclica? 

É quase inescapável relacionar o Japão às estações do ano e à sazonalidade, tal ligação é uma constante em filmes, séries e animes. Acho isso maravilhoso, além de muito esclarecedor sobre a cultura japonesa e sua forma de enxergar o tempo e os ciclos. As “oito estações” foram uma sacada que dá conta do tempo do relógio (durante a escrita, notei que havia passado no Japão dois outonos, dois invernos, duas primaveras e dois verões), mas não do fluxo temporal que a obra percorre. Por isso, optei pelos relatos do tempo presente sempre sinalizando locais e datas e relacionando episódios com temática semelhante, para evidenciar como a experiência humana costuma ser muito mais cíclica e fragmentada que o calendário.


Kyoto é a localidade que mais aparece no livro e talvez seja, das cidades japonesas, a mais fetichizada pelos turistas e pela indústria do turismo, que buscam nela uma ideia de essência do Japão. Você morou lá, o que te dá uma experiência e um olhar muito diferente do do turista. Como foi transformar a cidade em matéria narrativa sem cair no exotismo?

Fico feliz que você tenha notado isso porque meu maior receio era cair em uma visão orientalista, no mau sentido, a do observador eurocêntrico. Como nunca havia tido contato com a cultura japonesa, seria fácil isso acontecer. Mas além desse cuidado, havia a particularidade de morar em Kyoto durante a pandemia, com o turismo reduzido a quase zero. Não dá para considerar isso um privilégio, mas sem dúvida moldou minha experiência e minha visão sobre a cidade. Por fim, havia o fato de que levava uma vida normal, vivia em um apartamento sem valor histórico, ia ao supermercado, trabalhava e cuidava da casa como se estivesse em qualquer lugar do mundo (com alguns jardins e templos monumentais pelo caminho, é verdade). 


Mirela na icônica Floresta de Bambu vazia, privilégio de tempos de pandemia
Mirela na icônica Floresta de Bambu vazia, privilégio de tempos de pandemia (acervo pessoal da autora)

Você já escrevia sobre cultura e sociedade japonesa como jornalista. O que mudou quando passou da observação profissional para o relato pessoal?

Apesar de ter o registro escrito como principal ferramenta, jornalismo e literatura seguem processos distintos. Escrever sobre a cultura do chá e do quimono, as ilhas-museu de Shikoku e a forma como o Japão lidou com a pandemia para veículos importantes foi recompensador, mas fazer isso com liberdade literária, trazendo o meu olhar e narrando episódios curiosos, por vezes íntimos, foi super prazeroso. Assim como ver o relato tomar forma e se transformar em livro. A obra bebe muito das matérias que havia escrito antes, mas o porte e a complexidade do material são muito diferentes. 


Há no livro uma tensão interessante entre pertencimento e estrangeiridade. Lendo a obra a gente tem algumas pistas mas, em algum momento você se sentiu integrada — ou o olhar de fora permaneceu como parte essencial da experiência?

Dois anos é muito pouco para se sentir integrada a uma cultura tão distante da nossa como a japonesa (apesar de haver vários pontos de contato). Talvez eu trocasse a palavra pertencimento por familiaridade – com o tempo, fui identificando semelhanças, como o gosto pela hospitalidade e pela confraternização e o comportamento avesso a conflitos, a meu ver comuns a brasileiros e japoneses, embora a forma de performar tais situações seja diferente. Por mais que tentasse analisar, é difícil, e potencialmente equivocado, ultrapassar a superfície e tirar conclusões. Nesse sentido, penso ser positivo manter o olhar fresco do estrangeiro. 


O Japão frequentemente é romantizado no Ocidente. Que imagens você quis preservar e quais sentiu necessidade de desmontar ao escrever?

Além dos estereótipos e generalizações, o Japão é, de fato, um país mágico. A cultura das gueixas, a cerimônia do chá e a estética dos templos não são fictícios e habitam o imaginário ocidental há séculos. Minha tentativa foi mostrar como esses elementos se fazem presentes hoje, lembrando que não são óbvios para a maioria das pessoas, como não foram para mim quando cheguei. Em relação às imagens que quis desmontar, talvez elas tenham mais a ver com o que foi omitido, como os cafés com animais, robôs e mulheres objetificadas e outras experiências que criam um retrato bizarro do país e que nunca frequentei. 


Mirela veste quimono durante sua temporada no Japão
Mirela veste quimono durante sua temporada no Japão (acervo pessoal da autora)

O livro é atravessado por pequenas experiências cotidianas — aquelas que raramente entram em narrativas turísticas. Como alguém que vai ao Japão a turismo pode se aproveitar desse dia a dia que você narra na sua escrita para ter uma experiência de Japão menos superficial?

Espero de verdade que os leitores possam se guiar pelas informações e lugares narrados em uma eventual visita ao país. Iniciei minha carreira como repórter de turismo e isso inevitavelmente percorre a obra e minha escrita como um todo, principalmente na apuração e nas descrições. O livro não é um guia, mas pode ser também. O que posso dizer ao leitor com esse intuito é: anote, rabisque, leia no avião e presenteie aquele amigo que está pensando em ir ao Japão. 


Fiquei encantado de me ver no seu relato. Em algumas partes, foi como reviver contigo os momentos que você conta no livro. Em outras, tive a sensação de que a gente não tem muita ideia do como impacta a vida das pessoas. Como foi transformar pessoas reais em presença literária? Que cuidados você teve ao escrever sobre encontros e personagens que fazem parte da sua trajetória no Japão?

Como escrevi em um trecho do livro, são as pessoas que ancoram nossa memória a determinados lugares e momentos da vida. Não temos ideia de como impactamos a vida delas, ou mesmo se impactamos, e o livro tenta apresentar quem cruzou meu caminho dentro de um contexto específico, a chegada a um novo e estranho país durante a pandemia. Em relação aos cuidados, só usei os nomes verdadeiros de quem pedi autorização (os brasileiros, sobretudo) e, nesses casos, estão no livro apenas informações e histórias pessoais que elas já tivessem tornado públicas, pelas redes sociais, por exemplo. 


Depois de escrever o livro, sua própria memória do Japão mudou? A escrita reorganiza aquilo que foi vivido? 

Acho que só vou descobrir quando voltar para lá e infelizmente não há previsão disso acontecer. Minha memória, no sentido fisiológico, sempre foi ótima, mas duas covids e duas gestações depois embaralharam muita coisa. Escrever o livro com método, olhando fotos, mensagens e folhetos, foi também um registro para mim e minhas filhas, pois tenho certeza que muita coisa teria se perdido se não as colocasse no papel. No entanto, mais que um relato, a escrita autobiográfica elabora lembranças, assenta vivências e ressignifica sensações. 


A permanência, sugerida já no título, parece menos física e mais simbólica. O que, afinal, “permanece” depois que a experiência concreta termina?

Sabe que ainda não descobri? Digo isso porque até aquilo que fica de uma experiência pode ser impermanente e se transformar a cada fase da vida. Nesse momento, posso dizer que o Japão representa uma fase ambígua, que me jogou pra dentro de mim e do meu casamento em um contexto antes impensável, a pandemia. Tive altos e baixos, mas arrisco dizer que, nessa situação, nenhum outro lugar me arrebatasse tanto e me fizesse tão feliz quanto o Japão. 


Capa do livro "A Cerejeira Permanece"
Capa do livro "A Cerejeira Permanece"

SERVIÇO

A Cerejeira Permanece: Um Relato em Oito Estações

de Mirela Mazzola

editora Litteralux R$58 (256 pág.)

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