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Show de luzes e cores do teamLab desembarca em Kyoto

Maior exposição do coletivo no Japão, o teamLab Biovortex Kyoto entra em jogo como atração numa cidade já repleta de magia


Kyoto foi a capital do Japão por mais de mil anos. Por isso, a cidade guarda tesouros preciosos para a humanidade. Apenas os templos budistas e santuários xintoístas são, aproximadamente, dois mil. E nessa cidade tão agraciada com a beleza intensa das estações, a coisa mais rara é um dia neutro. Há um verão de sol inclemente. Épocas de chuva diária. Frio, neve. 


Então, quando o coletivo de arte e tecnologia teamLab abre sua maior atração no Japão — uma caixa preta climatizada de 10 mil m², repleta de cores, luzes, sons e texturas —, ele parece oferecer um refresco, uma possibilidade de desfrutar beleza em um ambiente controlado. Assim me pareceu a proposta do teamLab Biovortex Kyoto que me levantou uma série de questões sobre como a arte e a cidade se conectam neste novo empreendimento.


Desvelando as obras

No dia da abertura para a imprensa do teamLab Biovortex Kyoto, o Japão bateu recordes de calor. Os apenas dez minutos de caminhada que conectam o novo endereço à estação central da cidade foram de uma eternidade escaldante. Dentro do espaço, porém, há um ambiente pensado para que o visitante se esqueça das agruras do clima e possa perambular até perder a noção do tempo. A ideia é criar uma arte imersiva, exploratória, para ser sentida com o corpo como um todo. 


No teamLab Biovortex Kyoto, é possível ver flores digitais enormes desabrocharem, tocando-as para fazê-las brilhar e perecer (obra ainda sem título). Também dá para assistir caligrafias infinitas de luz (The Eternal Universe of Words); sentar-se ou, melhor ainda, deitar-se no chão, para imergir na cúpula de The Way of Birds. Pode-se estar, ainda, na companhia de uma infinidade de esferas flutuantes que passam a se movimentar juntas, em uma ventania (Morphing Continuum).


Interatividade é uma das características das exposições do teamLab, como nesta obra em que as flores desabrocham ao toque da visitante (foto: Ilana Lichtenstein)
Interatividade é uma das características das exposições do teamLab, como nesta obra em que as flores desabrocham ao toque da visitante (foto: Ilana Lichtenstein)

Embora tudo seja temperado com uma trilha sonora inebriante e repetitiva, a sensação é boa a ponto de que eu tenha desejado que, mesmo que por um momento, a fotografia fosse proibida no espaço. A propósito, umas das coisas favoritas no Museu de Arte Chichu de Naoshima — a mais famosa ilha das artes do Japão — é, efetivamente, não ser permitido registrar a experiência com fotos. Seria interessante, e até diferente, um interdito desses nos espaços do teamLab.


Ao longo da visita, a anfitriã fala sobre a relação específica das obras com a cidade de Kyoto. Ela  explica que a obra  Forest of Resonating Lamps: One Stroke ganhou cores especiais inspiradas nas montanhas que cercam a antiga capital japonesa. Aqui, luzes se acendem a partir da presença do visitante, formando um caminho sequencial. Esta é uma das salas mais lindas de toda a exposição e a guia explica que o seu desenvolvimento exigiu um grande esforço do time de tecnologia do coletivo. Mas, voltando à pergunta do início deste parágrafo, não seria esta obra uma referência sutil demais à toda a história de Kyoto para um espaço de 10 mil metros quadrados? 


Fenômeno Ambiental

Para fechar, a guia nos mostra a  grande atração do novo espaço, uma obra já exibida nos espaços do coletivo em Abu Dhabi, Miami e Pequim, a Massless Amorphous Sculpture. A instalação é formada por bolhas de sabão gigantescas que flutuam entre o chão e o teto. Para entrar nesta sala, o visitante recebe uma capa de chuva, máscaras faciais e óculos de proteção, o que dá a sensação de se estar entrando numa fábrica ou numa granja. 


A ideia aqui é criar  um “fenômeno ambiental”, ideia que, aliás, circunda toda a exposição, Ela é associada a “vórtex” — palavra que dá inclusive o nome ao novo museu —, algo que não mantém uma estrutura estável de maneira independente, que só existe em um fluxo e tem fronteiras ambíguas, sem distinção material com relação ao seu ambiente.


O convidam, ao mesmo tempo, à contemplação e à necessidade de registrá-las (foto: Ilana Lichtenstein)
O convidam, ao mesmo tempo, à contemplação e à necessidade de registrá-las (foto: Ilana Lichtenstein)

A obra me lembrou muito da escultura de neblina que vivi no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio, na exposição seeing sound, hearing time , voltada para a obra do multiartista Ryuichi Sakamoto, falecido em 2023.  Criada em colaboração com Shiro Takatani e Fujiko Nakaya, Life-Well Tokyo, Fog Sculpture #47662 ocupava o terraço do museu com uma escultura de névoa amorfa, etérea, temporária… Ali, a gente escutava as risadas de crianças enquanto as pessoas se molhavam, sujeitas à vida e às intempéries. Por isso, me afligiu a ideia de receber tantas coisas descartáveis para a proteção, que serão jogadas no lixo logo depois. Vale ressaltar, no entanto, que não ficou claro se o aparato será incorporado à exposição ou se foi algo voltado apenas para esta primeira visita, voltada aos profissionais da imprensa.


A arte e a cidade

Kyoto tem uma quantidade impressionante de patrimônios culturais e históricos. Quando chegam, muitos visitantes verbalizam, emocionados, que aqui fica o Japão que eles imaginavam, com suas ruas estreitas e antigas construções meticulosamente bem preservadas. 


Ainda assim, a cidade inteira não é como o cenário de um filme antigo. Há regiões áridas e pouco povoadas, como esta que fica a menos de um quilômetro de distância da estação de Kyoto e não à toa escolhida para a nova empreitada do teamLab. A zona tem recebido muitos investimentos da prefeitura para a sua revitalização. A busca é por um desenvolvimento urbano centrado em arte, cultura e juventude. Neste sentido, um projeto bem significativo foi o novo campus da Universidade de Arte da Cidade de Kyoto, inaugurado no local em 2023, num prédio bonito e imponente, que simboliza uma característica que poucos conhecem da Antiga Capital: em Kyoto, um em cada dez habitantes é estudante universitário.


Massless Amorphous Sculpture: bolhas de sabão que flutuam entre o chão e o teto (foto: Ilana Lichtenstein)
Massless Amorphous Sculpture: bolhas de sabão que flutuam entre o chão e o teto (foto: Ilana Lichtenstein)

Tudo indica que, com a quantidade de visitantes que a cidade recebe, e o frisson que um espaço tão fotografável provoca, o teamLab Biovortex vá ser parte importante na revitalização da área. Entretanto, uma pergunta ficou muito forte para mim: de que modo esta arte que se diz feita para se vivenciar com o corpo pode ser pensada, também como uma experiência da cidade?


Me pergunto, pois, depois de umas horas nessa caixa preta de projeções coloridas, tão confortável termicamente, fiquei mesmo com sede de ir pro mundo, deixar a pele exposta ao sol, mesmo que ele estivesse ardendo. Estar, enfim, sujeita à cidade que, neste caso, não é qualquer uma. É Kyoto, com seus dois mil templos e santuários, lugares lúdicos, que despertam o imaginário. Também, com seus jardins, parques, ruas histórias, antigos comércios e outros espaços que nos fazem viver a arte, a arquitetura, a cultura, a natureza, a fé e muito mais, com todos os sentidos.


Com um sorriso no rosto, a cicerone da tour fala que, em vários momentos, se vê obrigada a falar que o teamLab Biovortex é o maior espaço do coletivo no Japão, no sentido de que o coletivo está sempre se superando, se expandindo. De fato, o teamLab está presente com diversas exposições em várias partes do Japão. Somente em Tóquio, são duas locações. Na região de Kansai, onde fica Kyoto, há outras duas. Mesmo por aqui já existe o restaurante Vegan Ramen UZU Kyoto, uma experiência bem interessante. 


Como guia de turismo, sei que vai ser inevitável ter na manga a carta do teamLab Biovortex como opção para os dias de muita chuva ou sol muito forte na cidade. Porém, a verdade é que, se a proposta é viver a arte de forma imersiva, com o próprio corpo, como o teamLab propõe, a cidade de Kyoto ainda é a melhor opção.


SERVIÇO

teamLab Biovortex Kyoto

exposição permanente, a partir de 07 de outubro de 2025

Kyoto-fu Kyoto-shi Minami-ku Higashi Iwamotocho Higashi Kujo 21-5 [mapa]

¥3600 ~ ¥4800 (adultos, com descontos para pessoas com deficiência e crianças)



Ilana Lichtenstein é fotógrafa, jornalista e guia de turismo. Com seu olhar único, ama contar histórias sobre Kyoto, a cidade pela qual se apaixonou. Siga no Instagram @ilanalichtenstein.

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