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Destilados e encontros: uma jornada sensorial em Okinawa

No extremo sul do Japão, Leonardo Celestini descobre Okinawa: um arquipélago onde a produção de destilados tradicionais dita o tempo e celebra a hospitalidade local


Fotografia horizontal de Leonardo Celestini sorrindo entre folhas de cana-de-açúcar em uma plantação ensolarada em Okinawa, Japão.
Leonardo Celestini nos canaviais de Naha, o ponto de partida do projeto ONE RUM em Okinawa (foto: Leonardo Celestini)

Praias, sal, mar e sol… talvez não seja o Japão o primeiro país à mente depois de ler essas palavras. Pouco ainda explorada, Okinawa estampa essas paisagens no seu horizonte, junto aos ventos que sopram e balançam as flores, um dos símbolos da ilha. No pequeno arquipélago, há também uma produção saborosa e muito rica de uma bebida alcoólica própria dali: o awamori, destilado de arroz que fez meus olhos brilharem ao primeiro gole. Como assíduo curioso e entusiasta desse mundo que sou, fui conhecer pessoalmente a produção da bebida.


Ainda com a cabeça no jetlag após 27 horas de viagem, acordo às quatro da matina para rumar a Narita. Trem, ônibus e fila. Assim que sento na poltrona do avião, consigo tirar um cochilo. Rapidamente, o anúncio de pouso é ouvido, e o mar azul e cristalino é visto da janelinha. Agora, já são por volta de onze horas da manhã, e eu tenho poucas horas para almoçar e estar na destilaria.


O monotrilho rasga a capital Naha até parar na estação mais próxima à Mizuho Shuzo — destilaria mais antiga de Shuri, um dos distritos da cidade —,  para onde irei depois de fazer uma boquinha. Entro em um dos restaurantes de lámen que eu tinha em meu Maps e encontro um clássico balcão japonês, mas com várias alusões a elementos norte-americanos, outra coisa que se vê com frequência na ilha. O lámen, arrematado com um brilhante gohan, está excepcional. É também necessário, dada a degustação que virá em breve.


Pego meu caminho pelas ruas com os olhos vidrados no Google Maps, hábito comum de viajantes no Japão. Estou apreensivo, ainda que no horário, para chegar à destilaria. Depois de duas voltas no quarteirão e de achar que estava no lugar errado, entro. “Akira-san”, falo e me indicam a entrada, em que me esperava meu anfitrião, Akira Nakazato.


Leonardo Celestini e o produtor Akira Nakazato posam em frente ao prédio da destilaria Mizuho, que apresenta estátuas de leões guardiões (Shisa) e ornamentos de dragões no telhado.
Leonardo e Akira Nakazato na entrada da histórica Mizuho Shuzo. (foto: Leonardo Celestini)

Terroir e koji

Akira é o master distiller da Mizuho Shuzo. Ali, os projetos de rum, awamori, gin e bitters vêm da sua incansável pesquisa e busca pela inovação. Sou recebido com um sorriso e uma saudação calorosa, para combinar com os 21 graus que faziam no inverno da ilha. Em uma entrada com imagens de shisa, guardião espiritual do povo de Okinawa, entro. Claro que a troca de calçados é obrigatória.


Dentro, vejo ânforas e barris envelhecendo destilados, com uma mesa ao centro. Meu lugar está posto, com algumas taças e uns chocolates. Akira e eu trocamos presentes: eu não poderia atravessar o mundo e não trazer uma aguardente de cana para o meu amigo. Então, nos sentamos e a palestra sobre rum começa.


ONE RUM é o projeto criado pelo destilador há 6 anos, para que a produção local de kokuto (uma espécie de açúcar mascavo) fosse melhor aproveitada. Eu olho aquilo maravilhado, percebendo ali a paixão e a expertise. Akira me explica que o projeto explora terroir, ou seja, aproveita as características das ilhas do arquipélago para fazer oito garrafas de rum diferentes entre si, com características únicas. Infelizmente, as garrafas não são fáceis de achar no Japão. A produção é pequena e só uma leva foi produzida.


Fotografia em plano fechado de uma coluna de destilação de cobre polido e brilhante, destacando-se contra uma parede de fundo vermelha em um ambiente industrial.
Coluna de destilação de rum em cobre da Mizuho Shuzo, onde a técnica secular encontra a inovação. (foto: Leonardo Celestini)

A degustação continua guiada por harmonização com chocolates de diferentes partes do mundo, junto a outros produtos da fábrica. Diferentes awamori, licor de rapadura (incrível!) e várias expressões de rum explodem com sabor. Estou  maravilhado e atordoado com tantos sabores complexos e diferentes. Não posso deixar de falar do “culpado” por essa complexidade: o koji, fungo que guia as fermentações japonesas no geral e aqui toma uma posição central na produção das bebidas. Depois disso, seguimos juntos em visita ao espaço da destilaria.


Na Mizuho Shuzo, são três áreas principais: o alambique de rum, a área de produção de awamori e a área de fermentação. Aqui, quero dar preferência para a fermentação. O cheiro das salas é um frutado, doce e muito tropical, me inebriando ao longo da visita. Akira-san me mostra os botânicos e as matérias primas usadas, todas da região.


A área de produção de rum é moderna, com um alambique conectado a um destilador de coluna feitos sob encomenda para a destilaria. Porém, o que me chama a atenção é o espaço onde o awamori é produzido. Para quem acha que estou falando grego, contextualizo: o awamori é um destilado de arroz protegido por denominação geográfica, ou seja, só pode ser produzido em Okinawa. Além disso, deve ser usado o arroz longo tailandês e o processo de fermentação é feito somente com o fungo koji do tipo preto.


Mosto de bebida branco fermentando em um tanque metálico parcialmente coberto por uma lona azul translúcida.
Tanque de fermentação da Mizuho Shuzo (fotografia: Leonardo Celestini)

A destilaria se mostra gigante e pode-se entender por que ela está há tanto tempo produzindo essa bebida. Passeio pelos espaços de produção e vejo, inclusive, onde é cozido o arroz antes de que ele vá para os tanques enormes de fermentação. Os alambiques são enormes, e fico pensando no quanto é produzido de awamori ali. Alguns instantes e já não preciso imaginar mais: ao voltar para a área de envelhecimento, Akira revela uma piscina subterrânea da bebida, bem abaixo do chão onde estamos. Ali está envelhecendo a bebida que, no futuro, será chamada de kusu awamori. Tudo é muito organizado e preciso, com estrutura para manter as condições necessárias para a mágica acontecer.


Após conhecer os processos de produção e voltar à entrada, compro algumas garrafas para levar na mala. Akira despretensiosamente pergunta se tenho algum compromisso e oferece carona. Quando me dou conta, sou informado de que conheceremos o canavial do projeto ONE RUM. A estrada me lembra uma ida à praia no litoral norte paulista, e em breve somos cercados por canaviais que agora, me remetem ao o interior do estado de São Paulo. 


Paramos, e subitamente Akira me pergunta se eu não quero cortar cana. Neste momento, fico um pouco confuso, afinal, não é todo dia que um brasileiro corta cana em Okinawa. Em um golpe separo a cana, e logo estávamos dividindo um gomo. Aquele sabor doce e mineral me fez lembrar de quando pela primeira vez provei garapa. Às vezes, pequenos momentos no Japão evocam lembranças. Ou criam novas.


Voltamos ao carro, e sou deixado no centro de Naha.


Encontros e gastronomia

Visito algumas lojas, abundantes na Avenida Kokusai, a mais conhecida da capital. Como a ilha tem muita cana-de-açúcar e praias, lojas de rapadura e sal não faltam. Há também lojas de cerâmica típica okinawana, com um azul lindo, aludindo à cor do mar. O mercadão, cheio de meandros e caminhos labirínticos, praticamente convida para a visita, e assim vou.


Ali, vejo cenas típicas de mercados: seção de peixes, temperos, roupas, malas… tem de tudo. Compro alguns temperinhos, kokuto e um sorvetinho. Recebo, então, um convite do meu amigo para conhecer a Mahowbrew, cervejaria premiada de Okinawa. Com os quinze minutos de caminhada que calculo, chegarei no horário combinado. Para alguém recém chegado de Tóquio, a calma de Okinawa faz refletir. As ruas são mais vagarosas, não se corre nem amontoa. Com maior leveza, quem transita parece estar ali, e o convite à desaceleração é explícito.


Anoitece, chego à cervejaria. Akira-san me mostra as opções, pedimos, e converso com o dono, que também é amigo do master distiller. Penso, rindo, que Naha tem muito uma atmosfera de cidade de interior. Aqui todo mundo se conhece e sabe quais lugares indicar caso um forasteiro chegue, todos de conhecidos, seja previamente ou de visitas frequentes. Brindamos após eu ensinar os meus anfitriões a falar “saúde”. Já no primeiro gole entendo por que a cervejaria é campeã.


Claro que as batatas fritas não seguram a fome. No melhor do “esquema de interior“, Akira-san direciona meu jantar para o izakaya Kozakura. Infelizmente, ele não me acompanharia, e após mais uma caminhada, abro uma portinha. Me perguntam se tenho reserva, mas cochicham o nome do destilador, a senha que me leva a sentar ao balcão.


A culinária de Okinawa é diferente daquilo a que estamos acostumados em izakayas. Começo com um macarrão temperado que é o carro chefe da casa. Para acompanhar, as “uvinhas do mar”, umibudou, alga típica de Okinawa que explode na boca e tem um sabor de mar muito suave. Delícia! Como principais, vieram o obrigatório goya chanpuru, prato com melão-de-são-caetano, e uma barriga de porco que desmanchava na boca. A atmosfera típica e descontraída é intrínseca a todo izakaya, e aqui não é diferente. Muito bem alimentado, preciso voltar para casa.


Foto em ângulo diagonal de um prato de cerâmica artesanal com Goya Champuru (melão-de-são-caetano, ovo e tofu), com copos de bebida desfocados ao fundo.
O clássico goya champuru: o amargor do melão-de-são-caetano é o par inseparável dos destilados de Okinawa. (foto: Leonardo Celestini)

Cachaça e rum

A ilha respira cana-de-açúcar, e no caminho de volta, vejo no Maps que passaria pelo Mojito & Caipirinha Stand Bar, espaço focado em rum e cachaça, comandado por um brasileiro. Como saideira, entro. Reluto em pedir uma caipirinha, mas errado seria não o fazer. Há tempos não tomava uma fora de casa, e o bartender João a prepara com equilíbrio e precisão.


Unindo o calor brasileiro e a saudade de falar português por parte do barman, só se ouve a gente. Como o lugar é um quiosque no piso térreo de um prédio baixo, a rua é inundada pelo idioma. Isso atrai a atenção de alguém que passa pela frente do bar. “Vocês são brasileiros? O que estão fazendo aqui?”, diz surpreso um outro brasileiro, e o encontro está inesperadamente feito.


Entre conversas e risadas, tomo agora outro drink, rum com água com gás. O highball é um estilo típico japonês de tomar bebidas alcoólicas. Aqui provo uma versão que agrega elementos latinos. Essa antropofagia comumente vista no Japão ressalta a pluralidade cultural que existe, mas às vezes é ignorada ou apagada. 


Após esse drink, tomo o caminho de casa. Concluo que Okinawa tornou-se um lugar muito especial no Japão para mim, e há motivos de sobra para voltar. Distante de uma Tóquio sisuda e veloz, de ruas movimentadas por turistas e de ideias manjadas, este arquipélago esconde um sem-fim de novidades. Espero, em breve, sentir a maresia no canavial novamente.


SERVIÇO

Mizuho Shuzo

destilaria histórica de awamori e rum artesanal em Shuri

Okinawa-ken Naha-shi Shurisueyoshicho 4-5-16 [mapa]

entrada gratuita para visita à loja


Mahowbrew

famosa cervejaria artesanal local

Okinawa-ken Naha-shi Tsuboya 2-4-3 [mapa]

¥


Kozakura

izakaya com atmosfera oitentista

Okinawa-ken Naha-shi Makishi 3-2-1 [mapa]

¥¥


Mojito & Caipirinha Stand Bar

bar de coquetelaria com destilados de cana em Naha

Okinawa-ken Naha-shi Matsuo 2-6-5 [mapa]

¥


Leonardo Celestini é formado em Letras, professor; apaixonado por coquetelaria, por aromas florais e defumados e por viagens. Também compartilha ideias no Instagram @apoteca.co.

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