• Roberto Maxwell

Wabi-sabi e utopia brasileira em "Motion"

Brasileiro de 23 anos faz individual promissora em importante galeria de Tóquio


Instalação da exposição "Motion" (foto: Roberto Maxwell)


Repetição, colagens e cores pálidas são tão onipresentes na arte contemporânea a um ponto de ser difícil diferenciar um artista do outro. Muita gente ainda surfa – e se perde – na esteira do baile promovido por Andy Warhol nos anos 1950 e 60, que ressignificou conceitos como obra e originalidade. O impacto dos movimentos que geraram a pop art é tão grande que nem mesmo a geração digital, tão sensível a questões identitárias e comportamentais, conseguiu propor uma ruptura, em especial na forma. Assim, o aspecto visual das obras de jovens artistas raramente escapam de determinadas fórmulas.


Motion, individual de Yabiku Henrique Yudi em cartaz na Diesel Art Gallery, não foge da regra. No entanto, justamente a questão da identidade forma um pano de fundo diferencial e rico para as obras deste brasileiro de apenas 23 anos, radicado no Japão desde os 11.


Yabiku deixou o estado de São Paulo com os pais e o irmão em busca de uma vida melhor na Terra do Sol Nascente, um decisão quase que óbvia para milhares de descentes de japoneses no Brasil e em outros países da América Latina. A família foi morar na província de Gunma, onde ficam pequenas cidades industriais como Ota e Oizumi, nas quais o número de brasileiros chega a equivaler a quase 20% da população total. (Em termos de comparação, a proporção de residentes estrangeiros no Japão não chega a 2% do total da população do país.)


Terra estrangeira

Matriculado numa escola pública, Yabiku se viu imerso num universo completo estranho, com uma língua ininteligível. Interessado em desenho desde a infância, o então pré-adolescente encontrou refúgio no universo das revistas estrangeiras antigas, que ele passou a colecionar. A dificuldade de comunicação com os colegas japoneses foi passando com o tempo mas o interesse pelas imagens de outras terras não.


Com o fim do equivalente ao ensino médio, Yabiku se matriculou no Bunka Fashion School, a primeira faculdade de moda do Japão, uma conceituada instituição por onde passaram nomes como Kenzo Takada, Junko Koshino e Yohji Yamamoto. Mesmo num país de tão pouca desigualdade como o Japão, o ensino superior é um caminho distante para a gente maioria dos filhos de operários estrangeiros.


Apesar do desafio, Yabiku não precisou de muito tempo para perceber que a moda não acomodava sua necessidade de expressão. Foi quando ele começou a usar as revistas para fazer colagens. Com o tempo, objetos do cotidiano – muitos dos quais ele encontrava no lixo e nas ruas de Tóquio – passaram a ser incorporados nos trabalhos. “A ideia de inserir essas coisas tem uma função plástica. Mas me faz feliz saber que algo que eu encontrei no lixo pode fazer parte da minha arte”, conta o artista. Embalagens, filmes, peças de metal são alguns dos materiais que podem ser vistos amalgamados com recortes e pinturas.


O Japão como pano de fundo

A questão identitária começa a emergir no trabalho de Yabiku com suas pesquisas sobre a cultura japonesa. O artista usa como tela para suas colagens e interferências o washi, um tipo de papel artesanal muito difundido no Japão e mais conhecido por ser usado nas portas corrediças das casas antigas do país. Para aguentar a serigrafia e as intervenções, o papel usado tem espessura maior que o usado nas portas, o que traz textura e relevo às obras.


Yabiku gosta dessas imperfeições e evoca como norte do seu trabalho o wabi-sabi – um conceito que enxerga a beleza na imperfeição, na impermanência e na incompletude. A ideia é muito bem representada na maior instalação da exposição: um jardim japonês estilizado, com arranjos de flores secas e um curto caminho de pedra. Visitantes são convidados a se sentar no banco construído no espaço, feito com o corredor de um andaime para apreciar, descansar ou tirar fotos para compartilhar nas redes sociais. A instalação se complementa com outros objetos metálicos, como uma telha corrugada, cuidadosamente trabalhada para parecer velha e desgastada.


Perguntei ao artista porque ele optou por envelhecer materiais novos, ao invés de objetos já usados. Ele contou que via no Japão muitas coisas com aparência de novas e que, para ele, fazia mais sentido provocar o envelhecimento das peças. Esse processo de "envelhecimento artificial" começa a fazer sentido quando Yabiku fala do Brasil que, no discurso dele, aparece como uma antítese da realidade que vive no Japão. “A imagem mais forte que eu tenho do Brasil é andar na Avenida Paulista e ver prédios novos ao lado de construções completamente decadentes”, conta ele.


Lack, série de serigrafias em papel washi (foto: Roberto Maxwell)


Um país imperfeito e intrigante

Aparentemente, as imperfeições que o jovem enxerga no Brasil exercem um enorme fascínio sobre ele. Mas não é só isso. “Lá, eu vejo tanta diversidade”, diz Yabiku, quase num suspiro. Quando eu o pergunto se ele gostaria de mostrar sua obra no país, o jovem quase pula do sofá de alegria.


Ele conta que procura se manter informado sobre o Brasil através de podcasts e outros meios digitais. Seu objetivo é não esquecer a língua e entender como as pessoas de sua idade pensam. "Aqui no Japão, os jovens não se expressam sobre política, por exemplo. No Brasil, é diferente", completa.


Me lembro de como as ruas do Brasil são, muitas vezes, cheias de lixo. Então, quero saber o que ele acha que poderia encontrar em São Paulo e incorporar às suas obras. “Nossa, tanta coisa! Acho que vou ter que levar um saco enorme para recolher tudo”, solta ele, com empolgação.


Diversidade racial e cultural é um assunto praticamente desconhecido dos japoneses. O país acredita que tem um povo homogêneo, ignorando o fato de ser formado por ilhas que foram sendo paulatinamente ocupadas ao longo do tempo por gente vinda de diversas regiões. Além disso, o Japão incorporou o povo ainu – hoje reconhecido como etnia indígena – e o Reino de Ryukyu – transformado na província de Okinawa. Só nestes grupos, há uma miríade de diferenças culturas e linguísticas, quase que totalmente apagadas nos últimos dois séculos. Ainda assim, os japoneses têm dificuldades de reconhecer e lidar com diferenças.


Fechado por mais de 200 anos pelo xogunato Tokugawa (1603 - 1868), o país escapou da sanha dos conquistadores europeus mas se absteve de fazer parte de um mundo em intensa transformação. Sempre me pergunto se não é isso que causa a sensação de deslocamento que os japoneses têm até os dias de hoje. Uma eterna síndrome de Galápagos, reforçada por essa ideia de “povo peculiar com uma cultura peculiar”.


ID, obra de Yabiku Henrique Yudi (foto: Roberto Maxwell)


Tendo vivido seus anos formativos no Japão, Yabiku foi educado dentro de um sistema que favorece a unidade e desconhece a diversidade. Por isso, é ainda muito interessante o modo como o artista valoriza nas obras a sua origem. Em ID (foto acima), Yabiku desconstrói sua carteira de identidade brasileira. “Os visitantes não têm ideia do que se trata”, conta ele sobre a obra. Com a foto de identificação substituída por uma imagem de uma pessoa fumando em uma festa, Yabiku também representa seu ideal de Brasil, um país em que ele vê as pessoas “livres para serem como quiserem”. Essa imagem é utópica, certamente, mas diz muito sobre o Japão e os japoneses.


Ao evocar o wabi-sabi e olhar o Brasil com um certo romantismo, Yabiku traz o Japão para dentro de suas obras. Pode ser que, diante do momento em que vivemos, um brasileiro ache tudo exageradamente inocente. No entanto, aqui no Japão, o artista é uma voz dissonante. Não é à toa que seu trabalho está numa galeria de renome, que dá destaque e projeção a artistas jovens e promissores, do país e do exterior.


Filho de operários imigrantes e sem um agente, o jovem tem realizados trabalhos importantes, incluindo uma colaboração com a Valentino, uma lenda no mundo da moda internacional. Então, pode-se dizer que o trabalho de Yabiku tem impacto e está ganhando reconhecimento dentro do seu contexto que é a sociedade e o mercado das artes no Japão. É nesse universo e sob essa perspectiva que ele precisa ser analisado e entendido. Não é só isso, claro. Suas obras que exalam nostalgia e urbanidade seriam apreciadas em outras praias. Mas, particularmente aqui no Japão, o que está sendo dito hoje é que Yabiku Henrique Yudi é um nome a se acompanhar.


Yabiku Henrique Yuji (foto: divulgação)


MOTION

exposição individual de Yabiku Henrique Yudi

na Diesel Art Gallery [mapa]

até 13 de maio

entrada franca

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