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Kamikochi: um alívio para o calor do verão nas montanhas de Nagano


Repleta de belezas naturais, área é protegida e só pode ser visitada por um período do ano


Sobrevivente: árvore símbolo de Kamikochi (foto: Roberto Maxwell)

Alimentado pelas águas da chuva e pelo derretimento de neve dos picos de montanhas que chegam a atingir mais de 3 mil metros de altitude, o Rio Azusa forma um vale de beleza magnífica. Aqui fica um dos lugares mais mágicos do Japão, Kamikochi. O nome do local já dá noção de sua importância. Originalmente, a palavra que nomeia a área era escrita com caracteres que significam 'terra onde desceram os deuses'. Tudo porque o local é a fonte das águas que abastecem a região, conhecida pela producão agrícola.


Por isso, Kamikochi é uma área protegida, parte do Parque Nacional Chubu Sangaku. A reserva engloba toda a parte norte dos Alpes Japoneses, uma cadeia de montanhas vulcânicas que perpassa as províncias de Toyama, Nagano e Gifu.


Estando a cerca de 1.500 metros acima do nível do mar, é possível imaginar que Kamikochi tenha um inverno rigoroso. Por isso, a localidade só fica aberta aos turistas do meado do mês de abril até a metade de novembro. Veículos privados não podem circular na região. Quem vem motorizado precisa deixar o possante num estacionamento próximo à entrada do vale e seguir de ônibus o restante da viagem. Assim, quase que livre de veículos, Kamikochi é um paraíso para quem gosta de caminhadas na natureza, um espetáculo que se transforma com o tempo, ao sabor das estações


Entre abril e maio, restos de neve ainda podem ser vistos pelas trilhas. A paisagem se completa com as folhas jovens das árvores. Do início de junho ao meado de julho, as chuvas tomam conta na época conhecida como tsuyu. No verão, as agradáveis temperaturas que contrastam com o calor de boa parte do arquipélago tornam o local ainda mais atrativo. Por fim, em meados de setembro, o outono chega fazendo as folhas ficarem vermelhas e amarelas, encerrando a temporada de visitação.


Heranças da atividade vulcânica

Já na entrada do parque é possível ver pela janela do ônibus, por entre as folhagens, o Lago Taisho. Formado em 1915, após uma erupção que interrompeu o fluxo do rio, o lago tem uma paisagem bucólica que ganha contornos dramáticos com os caules das poucas árvores que jazem no meio do espelho d’água, testemunhas mortas da explosão. É possível desembarcar do ônibus aqui mesmo e começar a aventura por Kamikochi a partir do Taisho. Aliás, uma das formas mais bacanas de apreciar a beleza do lago é um passeio numa canoa com capacidade para três pessoas que pode ser alugada no local.


Canoas para apreciar o Lago Taisho (foto: Roberto Maxwell)

Do Lago Taisho em diante é possível tomar novamente o ônibus até o centro do vale, onde fica o terminal rodoviário e uma série de lojinhas, hotéis e outros estabelecimentos. No entanto, o encanto está justamente em fazer a pé a rota pela floresta até o centro. A trilha que liga o Lago Taisho até a Ponte Kappa tem 4,2 km de extensão e é muito confortável de caminhar. Na rota, também é possível apreciar o canto dos pássaros. Cerca de 100 espécies diferentes são encontradas na região, a maioria de pequeno porte como o sabiá-de-cabeça-marrom.


Algumas das mais belas paisagens de Kamikochi podem ser vistas nesta rota que, na maior parte do tempo, beira a corredeira de águas cor de esmeralda do Rio Azusa. O Lago Tashiro é uma delas. Formado pelas águas que descem do Monte Kasumizawa, o lago mais parece um rio. Raso por conta dos sedimentos e cheio de fontes de água que brotam do solo encharcado, o Tashiro reflete a vegetação e as montanhas como um espelho. No verão, flores como a azaléia e o sagisuge trazem colorido para o lago que, em muitos momentos, lembra uma pintura de Monet.


Tashiro, lago e águas rasas e fontes (foto: Roberto Maxwell)

Mais ou menos na metade deste primeiro trajeto, na parte onde as pontes Tashiro e Hotaka cruzam o rio que se divide temporariamente em dois braços, fica uma área de descanso, com alguns hotéis e um imenso espaço aberto nas margens do rio. Aqui, muita gente aproveita para almoçar e ficar mais próximo das águas. O Kamikochi Onsen Hotel, por exemplo, oferece na sua entrada um ashiyu, um banho de águas termais para os pés, excelente para quem quer relaxar da caminhada, antes de seguir para a parte central da área mais visitada do parque.


A poucos minutos de caminhada a partir do Terminal Rodoviário fica a Kappabashi, uma ponte suspensa de madeira que se tornou um símbolo de Kamikochi. Kappa é uma criatura do folclore japonês que vive em rios, lagos e lagoas. Também é o nome de um romance escrito em 1927 por Akutagawa Ryunosuke , que usou a ponte como inspiração para fazer uma sátira à corrupção na sociedade japonesa. A Kappabashi é o lugar para fazer aquela foto especial do vale, com os montes Hotaka e Myojin ao fundo.


Ponte Kappa, no centro de Kamikochi (foto: Roberto Maxwell)

Segunda rota

Seguindo a trilha rio acima, pode-se chegar às localidades conhecidas como Myojin, Tokusawa e Yokoo. Cada margem do rio tem uma trilha com diferentes paisagens. Após cerca de dez minutos de caminhada pela rota da margem esquerda fica o Pântano de Dakesawa, um alagado com água corrente e cheio de caules de árvores. Sem dúvida, um dos locais mais belos de Kamikochi.


Com sorte, começam a aparecer bandos de macacos que caminham entre os humanos sem sobressaltos, nas margens do rio. São animais da espécie Macaca fuscata, muito comuns nos Alpes Japoneses. É o mesmo tipo de macaco que habita outro ponto turístico conhecido da província de Nagano, o Jigokudani, onde os bichinhos se tornaram mundialmente famosos por tomar banhos em piscinas de águas termais.


Dezenas de macacos, a maioria fêmeas com os seus filhotes, circulam pela área, tornando o passeio ainda mais interessante. A dica é não interagir diretamente com os animais, em especial não tentar tocá-los. Também não olhe os macacos nos olhos, gesto que eles interpretam como ameaça.


Macacos no caminho: espécie habita quase todo o Japão (foto: Roberto Maxwell)

Cerca de uma hora de caminhada a partir da Ponte Kappa, ou 3,5 quilômetros, chega-se finalmente ao Okumiya, uma espécie de filial, do importante Santuário Hotaka que fica em Azumino, já fora do vale, à jusante do rio. Dedicado à Hotaka-no-mikoto, guardião dos Alpes Japoneses e divindade responsável pela segurança no trânsito, o local também é a porta de entrada para o belíssimo e misterioso Lago Myojin.


Suas águas vêm do descongelamento dos picos do Monte Hotaka e abastecem o Rio Azusa que desce o vale e irriga os campos de arroz que fica nas áreas mais baixas, justamente na área onde se localiza o santuário matriz. No Okumiya é possível fazer um curto passeio cerimonial, de canoa, pelo lago. O ingresso pode ser comprado na lojinha do santuário. Um monge assume o remo e circunda o Myojin com os visitantes e fiéis.


Monge nos preparativos para o passeio pelo lago (foto: Roberto Maxwell)

O santuário conta, ainda, com outras áreas no entorno do lago onde é possível sentar e relaxar, apreciando a paisagem. No entanto, é preciso ficar de olho. Daqui, a única forma de retornar ao centro de Kamikochi é a pé.


Seguindo pela margem direita, o caminho passa por uma série de alagados. Nesta parte da caminhada, a rota é feita parcialmente por pontes de madeira muito bem cuidadas e oferece belíssimas paisagens desse tipo de ecossistema. Nas partes de mata mais aberta, não é raro encontrar grupos de fotógrafos e desenhistas praticando suas artes.


Pontes de madeira sobre os alagados tornam a rota segura (foto: Roberto Maxwell)

Dicas preciosas

Fazer as duas rotas no mesmo dia depende muito do ritmo de cada pessoa. Vale considerar que são quase 15 km de caminhada. Por isso, passar uma noite em Kamikochi não é uma má ideia. Além dos hoteis, a localidade oferece chalés por preços relativamente razoáveis, equipados com cozinha.


Chegue cedo para poder aproveitar o máximo a viagem. De Matsumoto, o primeiro ônibus direto para Kamikochi sai às 5:30 da manhã. A viagem dura cerca de uma hora e meia. Depois deste horário, a melhor pedida é pegar um trem da estação de Matsumoto até Shin-Shimashima e, deste ponto, embarcar num ônibus para Kamikochi. O primeiro horário com conexão entre os dois transportes é 6:31, com chegada por volta das 8 da manhã.


Como Kamikochi é, basicamente, um local de vivência com a natureza, os ônibus de saída mais tardios partem no final da tarde. Para Matsumoto, a cidade grande mais próxima, a última conexão sai às 17:30. Portanto, programe bem o dia.


Entrada de Kamikochi, o início das aventuras pela bela região montanhosa (foto: Roberto Maxwell)

Outro ponto importante é estar confortável. Vista roupas leves, mas mantenha o corpo coberto para evitar o contato com as plantas e animais da região. Aliás, falando em bichos, o parque é habitat de ursos. O encontro com esses grandes mamíferos não é comum, mas não pode ser totalmente descartado. Carregar um sino costuma ser efetivo para evitar que o urso se aproxime. No caso de encontro, não corra. Tente se afastar lentamente sem dar as costas para o animal.


Por fim, caso tenha bagagem pesada, a dica é deixá-la num armário na estação de Matsumoto, mesmo que você decida passar a noite em Kamikochi. Assim, você pode começar a caminhada antes de chegar ao Terminal Rodoviário, onde ficam os poucos armários disponíveis na localidade, o que vai ser um ganho enorme de tempo e de esforço físico. Por isso, coloque o que você precisa numa mochilinha e vá leve para aproveitar esse lugar onde as águas e a natureza são vistas como uma bênção dos deuses.


SERVIÇO

Como chegar? Apesar de existirem linhas de ônibus diretas partindo de Tóquio, Osaka, Takayama e Nagoya para Kamikochi, a melhor forma de organizar uma viagem para o local é entrando por Matsumoto. Daqui há as opções rodoviária (menos frequente) e mista, com trem da linha Kamikochi até Shin-shimashima e troca para um ônibus. Mesmo com a baldeação, é possível comprar um único bilhete para toda a viagem na estação de Matsumoto. Onde ficar? Caso você decida por pernoitar em Kamikochi, existem hoteis como o Imperial e o Lemeista. Também é possível ficar em cabanas bem equipadas, como as do Nishi Itoya.


Onde comer? Hoteis como o Lemeista e o costumam ter restaurantes abertos ao público. Perto do Terminal Rodoviário fica, ainda, o Gosenjaku Kitchen, dentro de uma lojinha de souvenirs.

 

Este texto é uma versão atualizada de um material que foi publicado originalmente na revista Guia JP.

317 visualizações1 comentário

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1 Comment


Ruth Queiroz
Ruth Queiroz
Aug 01, 2023

Engraçado qur na foto do barco pensei "lembra Monet" na seguinte vc comentou.

Imagens incrivelmente lindas!

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