Francês radicado em Tóquio desafia percepções de gênero no Japão

Fotógrafo estreia em livro com imagens que trafegam entre o real e o surreal


Imagens do livro "Un Peu Anxieux" de Jeremy Benkemoun (foto: Rodrigo Esper)

Jeremy Benkemoun é um fotógrafo francês com um trabalho focado na comunidade LGBTQI+ de Tóquio e obras extraordinárias sobre o tema. Fiquei imediatamente interessado pelo trabalho dele e, pesquisando mais, acabei descobrindo que o Jeremy tinha acabado de lançar seu primeiro livro de fotografias chamado Un Peu Anxieux, algo como “um pouco ansioso”.


Além disso, o Jeremy estava colocando na praça, junto com outros cinco editores, a terceira edição da Iwakan Magazine, uma revista impressa que se debruça sobre todos os tipos de desconforto que podem ser sentidos quando se bate de frente com as normas sociais de gênero.


Capa de Un Peu Anxieux, na exposição de lançamento da obra (foto: Rodrigo Esper)

Para trocar uma ideia com ele, fui com a minha equipe até Koenji, um dos bairros alternativos da capital japonesa. Caminhamos numa tarde chuvosa pelo shotengai Koushin-dori — uma das ruas de comércio do bairro — até chegar em um beco bem estreito onde fica a Tata Book Shop. Estrategicamente, combinamos a visita no início da tarde porque o espaço é realmente apertado. Seis pessoas no andar principal e a loja está lotada.


Qualquer um com um pingo de curiosidade sabe que é em locais como a Tata que as melhores joias de uma cidade estão escondidas. Põe isso, dá para imaginar que a escolha da livraria para a conversa não foi por acaso. A Tata comemorou dois anos de existência no último mês de setembro e, para marcar a data, editou o livro do Jeremy.


A minúscula livraria Tata, em Koenji (foto: Rodrigo Esper)

Conversamos longamente com ele sobre o seu trabalho e sobre sua visão política acerca do trabalho com sujeitos LGBTQI+, especialmente num ambiente super conservador como o do Japão. Ele nos contou que viver em Tóquio não estava entre seus objetivos de vida. Depois de fazer bons amigos e começar a trabalhar como fotógrafo de moda, ele tomou a decisão de se estabelecer no país.


Uma coisa que eu achei muito interessante foi o fato de que a fotografia não é exatamente a paixão do Jeremy. Ele é viciado em filmes e, como bom francês, não foge de uma discussão política. Assim, a fotografia acabou se tornando uma ferramenta de autoexpressão, de apresentar mensagens visuais provocativas.


Conceitos como liberdade são questionados no livro por Jeremy Benkemoun (foto: Rodrigo Esper)

Un Peu Anxieux é uma coletânea de trabalhos do artista. Embora as fotos não tenham sido pensadas como um conjunto, elas trazem uma mensagem muito clara. São corpos expostos, de tipos diversos, sem medo de provocar e se expressar. Muitas das imagens são produto de ações em conjunto com pessoas muito próximas: a amiga fotógrafa, o ex-namorado… O livro começa com imagens naturalistas que, aos poucos, vão perdendo forma, criando amálgamas entre os sujeitos retratados. Uma de suas criações singulares é um conjunto de fotos que usa um método analógico destrutivo para criar retratos surreais.


Para Jeremy, as imagens são a sua forma pessoal de levantar as questões políticas e sociais de gênero e uma forma de discutir a ideia de liberdade numa sociedade em que esse conceito está cada vez menos nítido.


Jeremy na viela estreita onde fica a Tata Book Shop (foto: Rodrigo Esper)

SERVIÇO

Un Peu Anxieux

autor: Jeremy Benkemoun

editora: Tata preço: ¥6000


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Este texto foi adaptado e traduzido do original publicado no site Local Maze.


Rodrigo Esper vive há três anos no Japão e trocou a vida de agência para fundar a revista online Local Maze.

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