Chá verde, a quintessência da vida

“Montanhas e vales onde o chá cresce são sagrados e pessoas que colhem o chá vivem vidas longas.”

Eisai, monge que plantou as primeiras sementes de chá no Japão



Quando fui convidada para contar um pouco mais sobre chá japonês confesso que meus olhos brilharam. O chá, que é consumido por mais de dois bilhões de pessoas, sendo a segunda bebida mais popular no mundo (atrás apenas da água), transformou a minha vida.


Desde criança me interessei por infusões. Minha mãe me apresentou à camomila quando eu tinha 5 anos de idade, não só para acalmar antes de dormir, mas também para manter minhas madeixas douradas mais brilhantes. Minha segunda experiência foi com a hortelã, paixão da minha avó, que ainda mantém uma hortinha no jardim para beber depois das refeições. Já adolescente era uma diversão ir ao supermercado e escolher — dentre milhares de opções de caixinhas coloridas — a que seria a minha queridinha do mês.

Foi então que chegou o momento em que vim morar no Japão e a minha história com as infusões mudou. O país do chá verde me fez ver que havia um mundo todo além das ervas a ser explorado. Aqui fui, aos poucos, mergulhando nesse oceano profundo. Quando vi estava completamente apaixonada e encantada. Hoje pesquiso sobre diferentes tipos de chás e infusões a todo momento e trabalho na Ippodo, uma das companhias mais tradicionais de chá em Kyoto, terra natal do chá verde, com mais de três séculos de história.


Origem sagrada

Tudo começou em 1191, quando o monge budista Eisai plantou sementes de Camellia sinensis trazidas da China por um colega, no templo de Kousanji que fica no noroeste montanhoso e frio da cidade. Com o tempo, a planta se espalhou pelo país e atualmente o chá é produzido em outras regiões como as províncias de Shizuoka, Kagoshima e Mie.

O pioneiro, de Kyoto, é chamado de Chá de Uji e há anos tem elevadíssima reputação e reconhecimento. Uji é uma cidadezinha no interior da província de Kyoto, onde a plantação se desenvolveu facilmente pelo fato do local ser repleto de rios e montanhas enevoadas, com solo rico em minérios e grande diferença de temperaturas entre o dia e a noite, ou seja, as condições perfeitas para o cultivo do chá verde.


O curioso é que o chá de Uji não vem somente das plantações da cidade que leva seu nome, mas também das regiões por onde correm os rios Uji e Kizu, abrangendo as localidades de Kyototanabe, Ujitawara, Wazuka, Ayabe, Yawata, Asamiya (já na província de Shiga) e Minami Yamashiro (nas divisas das províncias de Kyoto, Nara e Mie).


Diversidade

Existem pelo menos cinco tipos de chá verde japonês: o matcha, o gyokuro, o sencha, o houjicha e o genmaicha. Os dois primeiros têm suas plantações cobertas por um tipo de lona preta e palha de arroz durante os vinte dias anteriores ao da colheita, a fim de bloquear o contato direto com a luz solar. Isso diminui a fotossíntese e faz com que as folhas liberem o umami o quinto gosto básico do paladar humano que, em tradução literal do japonês, quer dizer “saboroso e agradável”.


Já os demais tipos são cultivados a céu aberto. O curioso é que nem todos são verdes. O houjicha é marrom pois suas folhas são torradas. E junto ao genmaicha são acrescentados arroz integral e milho torrado, para dar uma suavizada no amargor e sua cor, após o preparo, é o amarelo-claro.

Uma das características mais interessantes do chá verde japonês é que, dependendo do modo como a folha é cultivada, colhida, processada e preparada, obtemos também diferentes sabores e benefícios. Na hora da escolha do chá tudo deve ser levado em consideração: os utensílios a serem usados, a quantidade a ser usada, a temperatura e o tempo de infusão, a pessoa que vai beber e até mesmo o momento que a bebida vai ser consumida.

Como as folhas do chá passam por processos de vaporização, secamento e enrolagem, quanto maior a temperatura, menor o tempo de espera para as folhas do chá se abrirem. Além disso, quanto maior o tempo de infusão, mais amargo será o chá.


O sencha, que é um dos mais consumidos e chega no Brasil com o nome genérico de chá verde, é preparado geralmente com água entre 80 e 100 graus celsius e precisa de um minuto de infusão, apenas. Mais tempo que isso fará com que o chá fique muito amargo, difícil de ser apreciado. O sencha é indicado para ser bebido após as refeições, uma vez que ajuda na digestão, evitando a sensação de estômago pesado.


Sencha, excelente após as refeições (foto: soultea.de)

Já o matcha é o chá verde em pó, usado nas cerimônias do chá. Como todas as partes da folha da Camellia sinensis são utilizadas no seu preparo, este é o tipo com a maior concentração de vitaminas e de cafeína. Recomenda-se que seja consumido todos os dias pela manhã. Era assim que os guerreiros samurais se preparavam para os treinos e batalhas, com grandes doses diárias de matcha. E é assim que começo os meus dias também. Este tipo de chá também ajuda a aumentar a qualidade e o tempo da meditação.


Matchá: auxílio na meditação (foto: matcha.co)

Quem quer sentir o sabor umami na sua essência e precisa se concentrar em estudos, livros e reuniões, a pedida é o gyokuro. Preparado a temperaturas entre 40 e 60 graus centígrados, este tipo é constituído por folhas tão delicadas e sensíveis quanto a pele humana. Aliás, a temperatura de infusão é a mesma das banheiras das casas japonesas. Para o gyokuro, o tempo de espera é de 1 minuto e meio. Este tipo de chá é raríssimo, representando menos de 0,3% de toda a produção do país. Muito por isso, ele é recomendado para presentear pessoas importantes e ser consumido em ocasiões especiais. Há inclusive muitos japoneses que nunca provaram um bom gyokuro.


Chá de luxo: gyokuro (foto: Rama)

O genmaicha e o houjicha fazem parte da categoria dos bancha que utilizam folhas maiores e mais maduras. Prepará-los com água fervendo e esperar apenas 30 segundos é o ideal. Como eles têm pouquíssima concentração de cafeína, podem ser tomados o dia todo, inclusive por crianças, gestantes e idosos. O houjicha é o que eu recomendo aos iniciantes, seguido de um encorpado blend de sencha, não muito amargo. Os amantes de café tendem a gostar do houjicha. Costumo tomar os banchas o dia todo, seja em intervalos no trabalho, seja nas horas livres quando estou acompanhada de um livro. Aliás, os chás japoneses também contribuíram para que meu amor pela leitura crescesse cada vez mais.



Quente ou frio?

Todos os tipos de chás também podem ser preparados com água fria e ficam perfeitos para os dias quentes. O tempo de espera no preparo aumenta de 15 a 30 minutos (lembra da regrinha: quanto menor a temperatura, maior o tempo de espera). No caso da infusão gelada, quanto mais tempo se espera, mais umami é liberado. Além disso, o chá fica mais suave.


Tanto o chá preparado quente quanto o frio podem trazer notas de outros sabores. Enquanto bebo o líquido fico tentando descobrir se é baunilha, milho, algas, melancia…. E olha, tem muito mais do que isso. Curioso, não?


Porém, todas essas dicas servem para os chás produzidos pela minha empresa, a Ippodo. Dependendo do fabricante e da região, o modo de fazer a infusão pode variar e eu acho isso muito interessante.


Não custa lembrar, mas nunca colocamos açúcar no chá. A bebida deve ser apreciada como ela é. O que eu não fazia ideia, e acredito que muita gente também não imagina, é que dos pequenos produtores às grandes empresas de chá, todos fazem um processo cuidadoso de seleção das folhas. Após serem analisadas e escolhidas, elas vão sendo agrupadas em blends. É graças a isso que conseguimos ter diversos sabores e aromas do mesmo tipo de chá verde.


Na Ippodo temos mais de sete blends de sencha e gyokuro e quinze de matcha, além dos produtos orgânicos. Muita gente pode achar o matcha ou o sencha amargos demais. Mas o verdadeiro sabor do sencha é um equilíbrio entre o amargo e o doce, alcançado graças aos blends. Aliás, o preparo também é essencial, ou seja, quem sabe passar certinho o chá consegue um sabor bem delicioso. O bom é que não tem segredo: basta preparar seguindo instruções no pacotinho e colocar muito amor.


Desde que o chá verde virou protagonista na minha vida meu consumo de café caiu significativamente. Com isso, a ansiedade deu lugar à tranquilidade. Passei a meditar mais, a sentir meu corpo muito mais disposto e com imunidade mais forte.


O chá conecta pessoas. E conecta as pessoas com as suas próprias essências e verdades. É um caminho sem volta. Ainda bem.


SERVIÇO

Ippodo

loja de chás

Kyoto-fu Kyoto-shi Nakagyo-ku Tokiwagicho 52 Teramachidori Nijo Agaru [mapa]

10 às 17 horas (pedidos na sala de chá até às 16:30)

www.ippodo-tea.co.jp

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Este texto foi publicado anteriormente no site Direto do Japão.


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